Crônicas e Contos

Textos de Beto Pacheco
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    janeiro 25th, 2010Beto PachecoCrônicas, Ensaios

    por Pacheco, Beto Pacheco

     

    A cena é a seguinte:

     

    O casal está em um carro luxuoso, seguindo para um hotel luxuoso e travam uma conversa que é um misto de flerte, provocação e disputa dialética. Lá pelas tantas, após um insinuante questionamento por parte dela em relação às intenções do homem, ele dá a seguinte resposta:

    - Você não faz o meu tipo.

    - E qual é? Burras?

    - Não. Casadas.

     

    A resposta é de ninguém mais ninguém menos que Bond, James Bond.

     

    Vamos falar a verdade, é de se invejar tamanha canalhice. Uma canalhice bem ajustada, proporcional ao momento, no tom, na altura, no timbre e acorde certo. Tal qual um espião de Ian Fleming deve ser.

     

    É, fácil-fácil, a melhor frase do filme. Gosto também quando, de volta à mesa de pôquer, logo após quase morrer envenenado, ele olha fixamente para o vilão – que orquestrou a tentativa de homicídio – e diz:

    - Essa última mão quase me matou.

     

    Boa piada. Contudo, essa última frase é bonitinha, mas ordinária – no sentido de trivial, comum da coisa. É apenas uma galhofa com a recente situação. Não se presta a demonstrar uma característica de personalidade. Já a outra, “Não. Casadas.”, é ordinária no sentido rodriguiano da coisa. Cafajeste na essência; seja sob, sobre ou alheia à cama, num armário ou lotação qualquer.

     

    Ou seja, não há mar, língua, cultura ou gênero que modifiquem os seres humanos a tal ponto que não possamos ver o espelho de um James em um Vadinho (o de Dona Flor, do Jorge Amado) – no que se refere à canalhice, é claro.

     

    O primeiro tem nome clássico, inglês, quase um chofer com licença para matar. O segundo pode significar a simbologia da vadiagem, o vadio, ínfimo nos detalhes e nas artimanhas. Mestre dos botecos e das mesas de sinuca. Que poderia até adotar a alcunha sem sufixo se não fosse chamado insistentemente de “inho” pela mulher que o ama. Amor recíproco – ela, independente das escapulidas dele; ele, independente de ela, após a morte dele, casar-se novamente.

     

    E aqui estamos, na essência dos relacionamentos humanos. Seja Bond ou Vadinho; Fleming, Rodrigues ou Amado; Inglaterra ou Brasil; Londres ou Rio; Baker Street ou Baixa do Sapateiro, sempre haverá espaço e colo para os canalhas. Dos paralelepípedos baianos às fugas explosivas, sempre aparecerá um que, por uma noite que seja, poderá de deliciar com seus tipos preferidos.    

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    outubro 6th, 2009Beto PachecoCrônicas

    por Beto Pacheco

     

    Digamos que o casamento seja liberado aos padres… Já pararam para pensar?

     

    É simples: todo mundo sabe que, mesmo proibidos, alguns padres sempre deram um jeitinho por baixo dos panos – ou das batinas, sei lá. Não podendo casar oficialmente, eles conseguem usufruir sem terem que assumir. Ao liberar o casamento, a Igreja, simplesmente, tornaria a vida deles um inferno.

     

    Imaginem vocês o vigário tendo que explicar para a esposa que, em pleno domingo, tem missa às sete, às dez, almoço na paróquia, encontro de jovens (jovens, sei, sei…), missa às dezenove e que só chegará em casa depois das vinte e duas. É morte na certa. Pior: quem é que faria a extrema-unção do padre finado?

    - Chama o bispo! Chama o bispo!

    - O bispo não pode, teve que ir buscar a sogra na rodoviária.

     

    E a mulher do coitado, fula da vida, só de olho na loira que sempre senta na primeira fila durante a missa. O rapaz lá no altar, trabalhando, concentrado, e a esposa proferindo insultos sobre a sem-vergonha. Quando chega o momento da “paz de cristo”, as duas já estão rolando no chão, descabeladas.

     

    E se a esposa frequentar a mesma paróquia, vai se confessar com o marido?

    - Reze 18 ave-marias, 15 pais-nosso, e tudo ajoelhada no milho!

    - Mas eu não fiz nada, querido!

    - Viu só? É pelo pecado da mentira, meu bem.

     

    Ou então:

    - Padre, eu pequei.

    - Eu sei, minha filha. Agora, fale baixo que a minha mulher pode escutar.

     

    Padre bonitão, então, seria um problema. Teria gente se entregando desde cedo:

    - Quem chegar por último é mulher do padre!

    - Ai! Torci meu tornozelo… Perdi.

     

    Os problemas são infinitos e atingem toda a comunidade. Pense na família do padre. Claro, pois ele também teria filhos. Com as coisas custando os olhos-da-cara, e precisando comprar fralda, leite, remédios, roupinhas, etc., o dízimo certamente seria inflacionado. Não passariam mais cestinhas e, sim, bacias para recolher o dinheiro da comunidade.

     

    E ai de quem não colaborasse…

     

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    setembro 2nd, 2009Beto PachecoCrônicas

    por Beto Pacheco

     

    Há dois tipos de calor. O primeiro, e que existe desde que o mundo é mundo, é o calor do Sol, que sapeca a pele e nos empapa de suor. Aquele calor dos raios UV, que, auxiliado pela atmosfera, transforma o planeta num forno. Um calor que sufoca, mas ao mesmo tempo alivia a mente por iluminar o mundo. Com ele, vem de brinde o céu azul, profundo e sem nuvens, que pede que saiamos às ruas de bermudas, regatas, chinelos, saias, blusinhas e sandálias.

     

    Esse calor pode ser previsto, com dia e hora marcada, e anunciado pela “garota do tempo” nos telejornais. Também pode ser medido pelos termômetros e percebido sobre o asfalto fumegante. Sem falar que, de acordo com a estação do ano, faz-se mais presente. Ah!, o verão que vem chegando, anunciado pelas flores e por um despir-se coletivo. 

     

    É o calor da cerveja gelada, do descansar na varanda, do pegar uma praia, do nadar no mar, do mergulho num rio, do passeio nos parques, do picolé de limão, do suco, da fotografia bonita, das pernas de fora e da morena que passa num relance de olhar velado, coberto por óculos escuros.  

     

    Já o outro calor não se sabe direito de onde vem – muito menos quando vem. Sente-se poucas vezes na vida (se comparado às vezes que o sol nos queima). É interno, arrepia, preocupa, estimula, angustia, nos deixa ansiosos e nos dá taquicardia. Alguns o sentem mais que os outros; por natureza, talvez. Pode aparecer depois de um olhar fixo, ou de uma piscadela de olho. Pode vir depois de um “oi”, ou após um simples, relés, mas deslumbrante andar cadenciado. Às vezes, o simples toque de uma mensagem de celular nos faz pegar fogo. Ah!, esse sim é um calor imprevisível.

     

    Para algumas pessoas, esse calor sobe quando se percebe no outro um jeito especial de olhar; para outros, é o sorriso a encantar; quiçá, a maneira de sentar; ou então, uma palavra no ar. Não importa, pois, se sentir calor, seja qual for, e, por conseguinte, uma sede de matar, só há uma coisa a fazer: saciar-se.

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    agosto 27th, 2009Beto PachecoContos

    por Beto Pacheco

     

    Todo mundo na cidade sabia que Silas era matador. Corria boatos de que ele já teria mais de 50 mortes nas costas. A grande maioria era contratada, mas algumas eram moedas de troca por algum favor prestado e outras eram “necessárias” – como ele gostava de dizer – para manter a moral e os bons costumes. Contudo, Silas jamais matou ninguém por motivos pessoais. Afinal, Silas não misturava trabalho com vida particular.

     

    Silas mantinha algumas premissas que julgava fundamentais para que seu trabalho fosse valorizado. Primeiro: era um homem muito religioso. Sempre carregava em volta do pescoço um cordão com um crucifixo, “Para as horas difíceis”, dizia. Frequentava a missa todo domingo e respeitava todos os mandamentos… À exceção do “Não mataras”, obviamente. Silas costumava dizer que, já que existem 10 mandamentos, falhando apenas em um se manteria 90% mais próximo de Deus que os outros. Argumento muito justo.

     

    O segundo requisito para manter seu trabalho respeitado era não fazer nenhum serviço em sua própria cidade. Silas jamais matou ninguém onde morava. Talvez por isso, era muito querido. Todas as pessoas o cumprimentavam, as crianças o adoravam e as mocinhas se derretiam à sua passagem. Um homem realmente estimado. Silas não era casado porque sabia que uma mulher – e, consequentemente, filhos – seria um sério incomodo para que ele construísse sua carreira sem empecilhos. 

     

    Porém, um belo dia, Silas se apaixonou. No início achou que fosse apenas atração, mas logo percebeu que era mais que isso. Conheceu-a na igreja. Morena, cabelos lisos e vestido florido. Lindo sorriso também. De início, Silas manteve-se afastado, mas em pouco tempo já sentava próximo a ela na missa. Os próximos passos foram um “Oi”, depois, noutro dia, ele a acompanhou até em casa, um sorvete, um passeio na praça, um presentinho aqui, um poema ali e, pronto, estavam juntos.

     

    O pai da moça não gostou muito, já que o trabalho de Silas não devia oferecer muita estabilidade. Contudo, foi persuadido pelos argumentos de Silas, que explicou ser o melhor no que fazia e, por conta disso, ter bons rendimentos. A cada dia que passava, Silas se entregava mais à sua paixão. Primeiro veio a atração, depois ele disse gostar dela, depois falou que a adorava, que estava apaixonado e começava a planejar a última cartada: dizer que a amava.

     

    Porém, Silas não percebia, talvez por estar apaixonado demais, que a sua amada não respondia às suas declarações na mesma velocidade e com o mesmo entusiasmo que ele. A moça nunca respondia a uma palavra de carinho no mesmo momento que Silas. Sempre deixava para depois e, se falava, era mais por pressão do que por vontade. Talvez isso ocorresse por ela ser bem mais nova que Silas e, quem sabe, não estar tão certa dos sentimentos quanto ele.

     

    Naquele dia aconteceria a grande festa anual da cidade e Silas convidou sua namorada – pelo menos era como ele a chamava, apesar de nunca terem tido uma conversa “oficial” sobre o assunto – para ir com ele ao evento. Música pra cá, dança pra lá e, de supetão, Silas não se aguentou e falou sem pensar: “Eu te amo!” Ela o fitou com os olhos arregalados, engoliu em seco e saiu correndo sem dizer nada. Silas ficou ali parado, silencioso, frustrado, triste e abandonado.

     

    Meses depois, Silas largou a carreira de matador por não julgar ser mais capaz de executá-la com excelência. Isso se deu porque ele quebrou uma de suas regras básicas: não matar ninguém por problemas pessoais.

     

    E a moça nunca mais foi à missa.

     

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    agosto 6th, 2009Beto PachecoContos

    por Beto Pacheco

     

    O Balança-mas-não-cai entrou correndo pela porta do Boteco do Clodoaldo e, ofegante, relatou: “Vocês não vão acreditar!” Achei uma declaração e tanto, admito, e perguntei: “O que foi?”, frase que não pegou o balança de surpresa. Enquanto ele tomava fôlego para continuar o relato, olhei desconfiado para o Cotoco, que estava à mesa comigo e com o Picolé – filho, e também “funcionário” do estabelecimento, do Seu Clodoaldo. Além dos quatro, ainda estavam por lá o Tião, o filho da dona Amália e tricampeão do campeonato de vira-cerveja da vila, e o Jardel – o garçom.

     

    “Fala logo, Balança, o que que tá pegando?”, apressei o marcha-lenta, mesmo sabendo que poderia vir mentira (um dos esportes preferidos do gajo) pela frente. “Pois vai ter um concurso de beleza no Clube Centenário”, disse ele.

     

    -        Upa, rapaziada, aí vi vantagem! – Emendou o Picolé.

    -        Como é que é, campeonato de beleza aqui na cidade? – Se espichou todo o Jardel detrás do balcão

    -        Vamo falá com o Seu Benício pra gente ser jurado. – Propôs o Cotoco, todo animado.

     

    “Calma lá, rapaziada, não é bem assim não”, puxou o freio o Balança, creio eu por saber que o Seu Benício, diretor do Centenário, não ia dar essa colher de chá pra Turma do Zé Ruela Futebol Clube. Havia três equipes que lutavam (e mantinham uma rivalidade quase cega) pelo domínio futebolístico da cidade – posição de grande respeitabilidade, há anos em disputa. Uma era a magnânima esquadra do Zé Ruela, composta, como já lhes contei em outra oportunidade (mas vai que você é marinheiro de primeira viagem), por Cotoco no gol; a defesa com Ferramenta, Meio-Metro, Balança-mas-não-cai e Maria-vai-com-as-outras; na meiuca eu, Picolé, Juca Bala e Doblevê e no ataque Apolo 13 e Filomena. As outras duas eram o Três-Oitão Esporte Clube (formada pela gangue do galego que dá nome ao time) e o Clube Centenário de Futebol de Regatas (cujos primeiros uniformes foram camisas-regata). 

     

    Bom, voltando ao concurso, eu estava enganado e o problema não era o Seu Benício e, sim, o concurso mesmo… é que seria um concurso para eleger o homem mais bonito da cidade. “Porra, Balança, concurso de homem?!, Você só pode tá de sacanagem”, esbravejou o Picolé enquanto abria o freezer do bar pra pegar um picolé (que era a única coisa que acalmava o bicho). “Pior é que é verdade.” – continuou o Balança com a explanação – “Foi a Doralice que me contou. Ela faz parte da diretoria cultural do clube, que é formada por cinco mulheres e nenhum macho, e elas decidiram isso aí.” Portanto, era fato, a cidade, mais precisamente o Clube Centenário, ia promover um concurso pra decidir o homem mais bonito da região.

     

    Só sei que foi uma tiração de sarro a tarde toda, um dizendo que ia inscrever o outro, ou combinando em inscrever clandestinamente um terceiro, ou imaginando quem teria coragem de pagar tal mico e bla, blá, blá. O Tião nem dava pelota pra nossa conversa, pois, a esta altura, tava pra lá de Marrakesh, capotadão na mesa. Já o Jardel, o garçom, ouvia o nosso papo, mas sem dizer um A. Pensamos em colocar o Filomena – o caçula da equipe – no concurso, só de sacanagem, mas lembramos do grande jogo em que ganhamos de 5 a 0 do time do Três-Oitão, onde o Filó desfilou toda sua arte com 4 gols, e achamos melhor não mexer com ele. Afinal, não podemos estressar a nossa estrela. De qualquer forma, decidimos que era imprescindível irmos ao concurso, afinal, não perderia por nada a chance de ver, e esculachar, os participantes.

     

    O evento seria num sábado à noite e as semanas que o precederam foram de falatório e especulações na cidade. “Dizem que o Manelito vai participar”, previa um. “Ouvi falar que o Siriguela também”, arrisca outro. “Até o Dionísio, filho da dona Marta, lá do Sítio Primavera, disse que vem pro embate”, afirmava um terceiro. Olhando os nomes – e lembrando das caras dos possíveis concorrentes – decretei: Não vai ser concurso de beleza, vai é ser um circo dos horrores, isso sim. Até apostas começaram a rolar, coisa organizada realmente. E quem tomou a dianteira no negócio foi o Dagoberto, dono de uma banca de Jogo do Bicho, que ficava perto do salão de cabeleireiros do véio Marca-Passo – bamba nas tesouras e um dos mais antigos moradores da vila.

     

    A semana do concurso caiu bem numa lua boa pra cortar cabelo. Como eu tinha que ir até o salão do véio Marca-Passo, aproveitei e passei na banca do Dagoberto.  “Daí, Dago, que bicho tá pagando mais pra sábado?”, perguntei. E ele não pestanejou em responder (o Dagoberto era um profissional de primeira nos quesitos apostas, loterias e afins): “Pois o Manélito e o Dionísio tão pagando 5 pra 1. Já, se apostar no Siriguela, pode levar 3 vezes a aposta. Tem também o Charles, o Tristeza e o Engate de Reboque na jogada se quiser arriscar.” Por isso eu gostava do Dagoberto, ele não enrolava o cliente e dava todas as opções. Puxei a carteira, saquei deizão e avaliei a lista à minha frente.

     

    Uma grande aposta era o Engate de Reboque (um sergipano arretado e com uma cabeça que fazia jus ao apelido), mas eu achava que ele não fazia muito o tipo das juradas – grupo formado pela Doralice e mais as outras quatro integrantes da diretoria cultural do Centenário. Passei os olhos sobre os nomes do Siriguela (muito esmilinguido, pensei) e do Dionísio, um negão forte, músculos talhados no arado e na enxada, mas feio que dói. Concluí que na lata não ia dar, o vencedor só ia sair no porte físico mesmo. “Marca deizão no Dionísio aí, Dagoberto.”

     

    Eu já ia saindo da banca quando chegou o Marcelinho, irmão mais novo do Apolo 13, correndo. Ele fazia o trabalho de campo pro Dagoberto e este pagava uns sorvetes pro menino. Marcelinho (que ainda não tinha apelido, algo que incomodava muito a rapaziada do Zé Ruela) trazia informações fresquinhas. “Tem mais dois inscritos, Seu Dagoberto”, avisou o moleque. No passo que eu ia voltei e como num passe de mágica saquei meus R$ 10,00 da mão do dono da banca.

     

    -        E quem são eles? – perguntei.

    -        O garçom Jardel, lá do Boteco do Seu Clodoaldo, e o Henrique VIII. – Respondeu o menino, ainda ofegante pela correria em que chegou.

     

    O Jardel? – Pensei cá com meus botões. – Mas por que, raios!, o Jardel foi se inscrever?! O Jardel tem cabelos escorridos e sebentos, um festival de espinhas na cara, e está sempre de avental sujo e carregando um pano, azedo de tão fedido, que usa para limpar as mesas do bar… Não tinha a menor chance. Eu não via a hora de voltar pro bar, contar pra todo mundo, e gastar o Jardel com essa história. Porém, antes disso, resolvi mudar minha aposta… melhor, aumentar a minha aposta e cravar no Henrique VIII. Olha, sou macho pacas, desses que nunca vão achar algum homem bonito na vida, nem o Brad Pitt, mas tenho que admitir: O Henrique era presença.

     

    O nome dele era Henrique mesmo. A gente só o chamava de “Henrique VIII” porque ele era o oitavo – de quatorze filhos homens – que teve a dona Clementina. O mais velho se chamava Pedro (Pedro I) e o mais novo Luiz (Luiz XIV). O fato é que o menino Henrique era barbada. Não era, assim, nenhum galã, mas, perto dos concorrentes, ia levar o prêmio com o pé nas costas. Tudo bem que apostar nele não ia pagar muito, mas, vá lá, melhor que nada.

     

    Era chegado o grande dia. Juntamos a rapaziada, fizemos um esquenta no Boteco do Seu Clodoaldo e rumamos pro Centenário. O concurso seria durante um bailão, portanto, noite de diversão garantida – tirando o fato de encontrar com o Trêz-Oitão e companhia, algo que sempre causava faíscas. Contudo, cada um ficou do seu lado do salão e não tivemos problemas.

     

    A cada concorrente apresentado, uma chuva de aplausos, gritos, frases de efeito, vaias e copos plásticos entupia o espaçoso salão do velho Clube Centenário. E os concorrentes capricharam. O Dionísio até tomou banho naquele dia. O Siriguela, por sua vez, escolheu a dedo a roupa e apresentou-se com uma camisa preta com estampas de laranjas e limões cortados ao meio. Coisa linda! O Manelito comprou botina nova, o Tristeza chegou até a sorrir (coisa que não fazia nunca, com vergonha da arcada dentária que apresentava dois ponteiros, mas nenhum centroavante), e o Engate de Reboque tirou o bigode e sapecou uma gomalina na juba – pra realçar o proeminente crânio.

     

    Quando o Henrique VIII entrou, as meninas se descabelaram. Definitivamente, ele era o favorito e, se bobear, ainda sapecava a Doralice, organizadora do evento e sonho de consumo de 10 entre 10 dos homens presentes. Ela não tirava os olhos do rapaz… e não era a única. A vantagem de um concurso de beleza masculino é que a platéia fica forrada de mulheres – e o bailão seguia depois da escolha do vencedor. Por último, entrou o Jardel. Rapaziada, precisa ver, era outra pessoa. Juntei o Apolo 13 num canto e cobrei: “Pô, Apolo, teu irmão falou lá na banca do Dagoberto que o tal do Jardel que ia participar era o garçom, mas esse cara aí é outro.” O Apolo 13, de boca aberta e sem tirar os olhos do palco, respondeu, “Né não, é o próprio!”

     

    Olhei de volta e percebi que era ele mesmo, o Jardel, garçom do Boteco do Seu Clodoaldo. Não dava pra acreditar, o homem parecia artista de novela. Roupa alinhada, sapato brilhando, cabelo limpo e cortado com estilo, espinhas domadas e postura de passarela. Não dava pra acreditar. O estranho é que, quando ele entrou, ao contrário dos demais concorrentes, fez-se um silêncio sepulcral. Ninguém conseguia falar nada e o homem, mesmo com o barulho dos grilos do lado de fora aparecendo mais que a nossa respiração, não se abalou. Foi de ponta a ponta no palco e saiu triunfante. O burburinho foi aumentando aos poucos e todo mundo se perguntando o que tinha acontecido ali.

     

    O júri se retirou para deliberar e nós fomos bebericar. A música rolou por meia hora e logo as juradas voltaram com o resultado final. A Doralice e os candidatos subiram ao palco. Ela pediu a atenção de todos e começou: “Em terceiro lugar, Dionísio.” Todo mundo aplaudiu o negão e ficou na expectativa. “A briga pelo primeiro lugar foi acirrada” – continuou a Doralice – “e eu gostaria de chamar os dois postulantes, de acordo com o júri, ao título do homem mais bonito da cidade para ficarem ao meu lado: Henrique e Jardel.” Dá pra acreditar? O Jardel… O garçom, ali, quase o homem mais bonito da cidade!

     

    Todo mundo começou a aplaudir e a gritar “Jardel! Jardel! Jardel!” e ele começou a chorar. Foi bonito de se ver. Brasileiro é assim mesmo, xinga, xinga, mas, na hora que um igual tá lá no topo, o acolhe e torce pro mais fraco. Eu tava me sentindo como naquela história, que meu pai conta, do Amarildo – o Possesso da Copa de 62 –, que entrou vaiado para substituir o Pelé durante um jogo da seleção no Maracanã e saiu carregado, ovacionado pela torcida no final. “E o vencedor, o homem mais bonito da cidade e cercanias é…” Tensão, nervosismo, expectativa, ansiedade, torcida… “Éeeee…” Um ao lado do outro, de olhos fechados e rezando… “Éeeeee…” E a Doralice não falava, só enrolava… “Éeeeeeee…” The Oscar Goes To, vamos, fala logo… “Éeee… o Henrique!” E foi nesse momento que se ouviu a maior vaia da história do Clube Centenário. Bom, pelo menos eu ganhei uns trocados.

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