Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-

por Beto Pacheco
Ontem, eu escrevi sobre canalhas confessos (ou quase). Entre eles, James Bond e Vadinho. Curiosamente, uma amiga estava lendo alguns textos em outros blogs que existem por aí (é, eu sei, uma traidora mesmo) e encontrou um que falava da “tríade sinistra”. A princípio, o autor comentou que, até então, achava que a tríade sinistra era formada por Hitler, Stálin e o muro de Berlim. Depois, descobriu que a tríade era, na verdade, formada por uma trinca de canalhas liderados pelo intrépido 007.
Pois eu decreto uma nova tríade sinistra, formada por José, João e Genuíno. Com esses nomes, poderiam até serem filhos da mesma mãe. Contudo, Deus é pai e não permitiria tamanha desgraça a uma única e sofredora progenitora. Falo dos, novamente adotados pelo partido do presidente, José Dirceu, João Paulo Cunha e José Genuíno. O site G1 afirma que eles foram confirmados, no último fim de semana, na lista de indicados da ala majoritária da sigla para compor o novo Diretório Nacional, que será instalado em fevereiro.
Mas será possível que essa meleca de país jamais mudará? A tríade sinistra do mensalão, os caras que compraram deputados, que enfiaram todos os tentáculos no óleo que azeita a máquina pública, os caras que organizaram uma quadrilha vão, mais uma vez, comandar a campanha presidencial do PT. Ou seja, poderão, se vencerem, arquitetar tudo de novo. E, pior, em virtude da experiência adquirida, saberão mais facilmente escapar das armadilhas.
Para ferrar tudo de vez, terão a seu lado o Governo em pleno exercício. Ou seja, usarão das ferramentas que o poder lhes possibilita sem pudor. Eu desisto. Já me enchi de Collor, Sarney, Dirceu, Cunha, Genuíno, Arruda, cuecas cheias de dinheiro, caixa dois, empresas de fachada, laranjas, retórica, recursos. Perdi a paciência. Se James Bond pudesse saltar das telas… Se votar resolvesse… Se o terremoto, em vez de sacolejar favelas haitianas, sacolejasse o congresso brasileiro – só uma sacolejadinha que fosse – eu ainda daria crédito àquele que virou a ampulheta do tempo.
Enquanto isso não acontece, o negócio é espairecer na Bahia, com uma Dona Flor na rede e sem ver tevê, nem ouvir rádio, nem ler internet, jornal ou revista, quiçá ir à missa. Como já foi dito: “a ignorância é uma benção!”
Tags: Brasil, Campanha Presidencial, Governo, James Bond, João Paulo Cunha, José Dirceu, José Genuíno, Mensalão, Partido dos Trabalhadores, Política, PT, Sociedade, Tríade sinistra, Vadinho -

por Beto Pacheco
Vou-me embora para Tegucigalpa
Lá sou amigo do rei
Ou, se for de mais sorte, dos reis
Pois todos querem ser reis
Sois rei, sois rei, sois rei!
Lá em Tegucigalpa havia aquele que queria mais
E aqueles que não queriam lhe dar mais, mas não queriam menos
Em Tegucigalpa tira-se o rei da cama, ainda de pijamas
E coloca-se outro no trono, sob as barbas de todos
Sois rei, sois rei, sois rei!
Lá, como outrora, exila-se
Dissolvem-se direitos constitucionais
Decreta-se toque de recolher
Cercam-se embaixadas
Proíbem-se entradas
De um lado os que comandam, à força
De outro, os que queriam seguir a comandar
Os vermelhos a reivindicar
Os azuis a criticar
Sois rei, sois rei, sois rei!
Em Tegucigalpa não há democracia
Nem agora, nem antes
Em Tegucigalpa, ser amigo do rei lhe obriga a optar
Por um lado, ou por outro
E qual o certo?
Sois rei, sois rei, sois rei!
Vou-me embora pra Tegucigalpa
Pois a passagem deve estar barata
Quiçá a Gol tenha uma promoção
E, convenhamos, promoção não se joga fora
Mas, pensando bem, por que ir a Tegucigalpa?
Mesmo com passagem barata
Mesmo com consulado ou embaixada
Mesmo de pijama ou alpargata
Mesmo sendo amigo do(s) rei(s)… Sois rei(s)!
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O bigode
1
por Beto Pacheco
O homem tinha um vasto bigode, que cultivava com afinco e esmero. Ah!, o homem era praticamente seu bigode. Um bigode empostado, desses que não se vê mais hoje em dia, à exceção de alguns poucos abnegados da tradição. Toda manhã, ao adentrar em seu banheiro – cujas torneiras reluziam a ouro – ele procurava a tesoura própria para a poda e o pente fino, cuja eficiência era questionável, mas de um prazer no massageio inigualável.
O homem colocava seu terno italiano, acercava o pulso com o suíço, provava o café sob olhares temerosos dos serviçais e saia em busca do sedan preto que o esperava em frente ao prédio. Na calçada, segundos antes de entrar no carro, sentia o sol matinal cingir-lhe a face e dourar-lhe o espírito. O Senador achava-se o filho da estrela, o ungido, afinal, foram mais de cinquenta anos no poder, tendo generais, almirantes, brigadeiros, outros senadores, deputados, empresários, sindicalistas, banqueiros, e até presidentes sob a tutela de seu bigode.
Seguia para a esplanada, onde ficava o seu domínio – a sua Cidade Proibida. Já lhe tremiam os dedos pela idade, mas o peito e o olhar mantinham-se sempre acima da linha do horizonte. Todos se curvavam à sua passagem, fosse por respeito ou por temor. Detinha-se nos corredores para dar abraços efusivos e interesseiros em colegas ou em subalternos. Porém, no fundo, sentia desprezo por todos e escarrava mentalmente a cada adulação. Queria, a essa altura, viver cercado de concubinas, sem ter de, ainda, fazer gracejos com parasitas.
O Bigode havia construído um império às custas de sua posição e dos cofres públicos. Amparara toda sua prole e garantira que jamais, mesmo que findasse mil anos, seu sobrenome se perdesse nas vagas do tempo. Contudo, o Senador não contara com a soberba da juventude e menosprezou àqueles que seguiam seus passos como a uma cartilha. Até então, enfrentara exércitos fracos, mal preparados e despojados de sua altivez… mas o tempo é cruel com os anciãos.
Numa sessão dos iguais, levantou-se a hipótese de que o Bigode não servia mais como antigamente – estava ultrapassado. “Este plenário é como um bote salva-vidas há dias perdido, Senador. É hora dos velhos servirem de alimento às gerações vindouras, para que a espécie continue”, declarou a nova casta. Com o dedo em riste, mas tremendo – por idade e ódio arraigado – o Senador negou-se a se entregar. Vestiu o seu antiquado, mas eficiente, uniforme de batalha, lustrou as medalhas (conquistadas em sua maioria nos bastidores e sem honra) e sacou de todas as armas que possuía.
A tropa inimiga saiu em seu encalço por todos os lados, mas o velho Bigode tinha aliados poderosos e experientes (sem contar as inúmeras táticas que tinha na manga após anos de atos e mandatos secretos). Ao ver as fardas napoleônicas em defesa do Senador, a oposição gritou: “Raspemos o bigode! Mudemos o uniforme; e já!” Só não contavam com a dificuldade de se encontrar navalha capaz de expurgar as raízes e jaquetas grisalhas – sempre crescentes e profundamente espalhadas naquela esplanada.
(Texto enviado para o II Concurso Literário – edição de setembro – da Revista Piauí, cujo tema era o encaixe da frase “Mudemos o uniforme; e já!”, presente no conto Eficiência militar, da autoria de Lima Barreto. A vencedora do concurso foi a gaúcha Maurem Kayna Lima Alves, de Guaíba, com Trânsito)
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agosto 13th, 2009Artigospor Beto Pacheco
Dominguinhos – o compositor, instrumentista e cantor – tem medo de avião. Durante uma entrevista no programa do Jô, ele disse que há muitos anos não viaja de avião. “Na última vez que andei de avião o Gonzagão ainda estava vivo”, lembra. “Gonzagão” é Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Dominguinhos conta que, em sua última viagem de avião, Luiz Gonzaga falou (para acalmar o amigo): “Veja bem, Dominguinhos, você não precisa ter medo de avião. José Sarney anda de avião, o Sr. Antônio Carlos Magalhães também… Ora!, se avião não cai com essas bestes dentro, não vai ser com a gente que vai cair.”
O pior é que avião até cai… mas não caía, não caiu, não cai e pelo jeito não vai cair nunca com essas pestes mesmo. É, Seu Dominguinhos, tem tanta coisa mais temerosa do que avião por aí…
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agosto 5th, 2009Artigos, Crônicas, Textos premiadospor Beto Pacheco
(crônica 3ª colocada no Concurso Cultural Copel (2006) / categoria prosa)
Respeitável público, o horário eleitoral gratuito!
Caro leitor, você não se sente assim: como num circo? Cercado por malabaristas, equilibristas e animais adestrados? Sob as luzes do picadeiro, esses artistas criam um mundo de fantasias; envolvem-nos com sonhos, com promessas milagrosas e nós achamos aquilo tão bonito que voltamos e pagamos o ingresso novamente. O dinheiro desviado, as negociatas, a verba extra para esse ou aquele deputado se perdem na ‘caixa mágica número 2′. Somos iludidos facilmente e os poucos que percebem o truque só comentam às escondidas, para não escandalizar os pequenos, tão entretidos com as musiquinhas de campanha. Cria-se, assim, uma relação de troca entre esses artistas, que usam tão bem os recursos circenses, e nós, espectadores: eles não sabem de nada, mas fazem de tudo; nós sabemos de tudo, mas não fazemos nada.
Se faz tempo que essa tenda está armada? Pois ela veio na caravela com Cabral, meu amigo. Já passou pela mão de muita gente e hoje está legitimada pelo jeitinho brasileiro de ser. É isso mesmo: conseguimos distorcer a virtude nesse país. Aqui, logo-logo, a corrupção, a enganação e o enriquecimento a qualquer custo serão os padrões. Na verdade, acho que já vivemos dessa maneira. Só falta registrar em cartório – desde que o dono deste também esteja no bolso.
Acho bom o senhor e a senhora irem doutrinando seu filho desde já:
- Pai, quero ser médico quando crescer.
- Médico, meu filho? Mas médico tem que trabalhar em condições deploráveis, em hospitais caindo aos pedaços e sem remédios… bom mesmo é ser político.
Eu esperava que, depois de toda a bandalheira desvendada, pelo menos o discurso mudasse. Mas o circo é tradição meu povo! Além do mais, quem assiste ao espetáculo, quietinho, ganha cachorro quente de graça. Por que mudar as coisas, não é mesmo? Por que lutar contra esse mundo de magia, onde a moeda some do seu bolso e não vai parar atrás da orelha (mas faz escala direta para Caiman)?
Em todo caso, não desanime, você não está sozinho na arquibancada. Estamos todos juntos, assistindo a esse palavreado de terno e gravata. Eles não erram, ensaiam todo dia e têm o chicote afiado para manter o leão acuado. Agora, pensando bem, só tem um personagem do qual eu sinto falta: o palhaço. Ah, não! Acabo de olhar no espelho e encontrei o nariz avermelhado.
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