Crônicas e Contos

Textos de Beto Pacheco
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    setembro 28th, 2009Beto PachecoCrônicas, Poesias

    por Beto Pacheco

     

    Vou-me embora para Tegucigalpa

    Lá sou amigo do rei

    Ou, se for de mais sorte, dos reis

    Pois todos querem ser reis

    Sois rei, sois rei, sois rei!

     

    Lá em Tegucigalpa havia aquele que queria mais

    E aqueles que não queriam lhe dar mais, mas não queriam menos

    Em Tegucigalpa tira-se o rei da cama, ainda de pijamas

    E coloca-se outro no trono, sob as barbas de todos

    Sois rei, sois rei, sois rei!

     

    Lá, como outrora, exila-se

    Dissolvem-se direitos constitucionais

    Decreta-se toque de recolher

    Cercam-se embaixadas

    Proíbem-se entradas

     

    De um lado os que comandam, à força

    De outro, os que queriam seguir a comandar 

    Os vermelhos a reivindicar

    Os azuis a criticar

    Sois rei, sois rei, sois rei!

     

    Em Tegucigalpa não há democracia

    Nem agora, nem antes

    Em Tegucigalpa, ser amigo do rei lhe obriga a optar

    Por um lado, ou por outro

    E qual o certo?

    Sois rei, sois rei, sois rei!

     

    Vou-me embora pra Tegucigalpa

    Pois a passagem deve estar barata

    Quiçá a Gol tenha uma promoção

    E, convenhamos, promoção não se joga fora

     

    Mas, pensando bem, por que ir a Tegucigalpa?

    Mesmo com passagem barata

    Mesmo com consulado ou embaixada

    Mesmo de pijama ou alpargata

    Mesmo sendo amigo do(s) rei(s)… Sois rei(s)!

     

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    setembro 22nd, 2009Beto PachecoCrônicas, Poesias

    por Beto Pacheco

     

    Agora a pouco, eu estava ouvindo “Feira de Mangaio”. Brejeira e simples como fumo de rolo, arreio e cangalha. Por si só, uma obra que pode representar a música brasileira. Tão direta e certeira que não há quem vá desaprovar. Eu tenho pra vender, quem quer comprar?

     

    De autoria de Sivuca, ela representa sabores tão nacionais como o de Bolo de milho, broa e cocada. Sua escala é adocicada e provocante como um pé-de-moleque. A harmonia é inesperada como o casamento entre o alecrim e a canela. Mas que dá certo como se fossem almas prometidas. Eu tenho pra vender, quem quer comprar?

     

    Consigo imaginar o autor matutando, inspirado e iluminado… Mas a moldando sem sofrimento, sem pressa ou pesar. Só tendo que espantar, vez ou outra, aquele moleque que não o deixa trabalhar. O nome do dito era Zé, que saiu correndo pra feira de pássaros. Sabem o que aconteceu? Foi pássaro voando em todo lugar.

     

    O velho compositor, com suas barbas e cabelos alvos, pensou: lá também tinha uma vendinha no canto da rua, onde o mangaieiro ia se animar. E que cidade neste país-de-meu-Deus não tem? Onde se toma uma bicada daquelas com lambu assado e fica-se, deliciado, a olhar para Maria do Joá.

     

    De tudo se encontra nessa feira e nessa música. Foles, baixos e teclas ritmados. Guiados de forma esmerada como se por cabresto de cavalo e rabichola. Um talento nordestino, intuitivo e brasileiro. Como também são farinha, rapadura e graviola. Eu tenho pra vender, quem quer comprar?

     

    Lembra do pavio de candeeiro e da panela de barro? Pois há de ter lá. Os encontrará no último momento, se precisar. E aquele jovem, talvez Zé, talvez irmão de Joá, receberá o singelo recado: Menino vou me embora, tenho que voltar. Xaxar o meu roçado, que nem boi de carro. Tudo porque a música está a se acabar.

     

    Mas tu, como eu, como Sivuca, como o rapaz ou qualquer outro não há de querer a abandonar. Sua alpargata de arrasto não quer te levar. Só (e ainda diz só!) porque tem um sanfoneiro no canto da rua, fazendo floreio pra gente dançar. Um dançar acochado, daqueles que faz suar o corpo e o espírito. Ao lado também está Zefa de Purcina fazendo renda. Mas o que nos prende mesmo é o ronco do fole tocando sem parar.

    (ouça a música no post abaixo)

     

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