Crônicas e Contos

Textos de Beto Pacheco
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    janeiro 20th, 2010Beto PachecoCrônicas, Poesias

    por Beto Pacheco

     

    Rei,

    que sou,

    não perco

    meu tempo com

    um bando de plebeus.

    “Mas, majestade, vos damos

    nosso intelecto, amor, obediência e,

    também, algumas puxadas em vosso saco,

    motivo principal de estarmos próximos ao topo”

    Hei, e nós aqui embaixo que trabalhamos e, mesmo

    assim, não conseguimos subir, falta puxar uns sacos por aí?

    Reclama porque consegue questionar. E nós, cá tão baixos,

    mal sabemos escrever. Ditam por nós e apenas assinamos: X

     

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    novembro 24th, 2009Beto PachecoCrônicas
    por Beto Pacheco

     

    Quando eu fico muito tempo sem escrever é porque não tenho tempo ou, pior, muito pior, não tenho idéia do que raios colocar no papel (eu sei que é tela de computador, mas vamos tentar manter o mínimo de saudosismo… o mínimo!). O problema é que esta ausência de matéria-prima – ou de ponteiros mais lentos e preguiçosos – vai me causando uma aflição danada. “Será que nunca mais vou conseguir? Será que a inspiração se foi para sempre (como se você tivesse tido alguma que preste algum dia, Beto)?”, fico me flagelando mentalmente.

     

    É tamanho o devaneio que me apego a técnicas ou assuntos repetitivos (e qual não é?) para tentar, quiçá!, emplacar umas frasezinhas meia-boca. Uma das técnicas é a de recorrer a situações que vivi na infância. Minha amiga Cláudia adora essa, mas nem sempre me lembro ou, muitas vezes, não dou conta de relatar de forma agradável dais recordações. Porque, se nem eu aguentar ler o que eu mesmo escrevo, imagina o resto. O segundo passo é prestar atenção no dia-a-dia. Sempre tem um ataque de baratas suicidas, ou uma briga de bêbado no bar da esquina, ou um macarrão que se deixa queimar (confesso, consegui tal proeza certa vez) ou uma viagem mal-acabada. Vai saber.

     

    Porém, tem horas que nem isso dá certo. Partimos, então, para a crítica cultural, musical, literária, teatral, cinematográfica, o escambau… Mas em fase de baixa-estima intelectual, o trem não sai de jeito nenhum – seja em Minas ou no notebook que se põe a rir da sua cara. Nas últimas, quando o túnel se finda e a luz se esvai, vamos para o futebol. E por que o futebol é a última instância? Porque escrever BEM sobre futebol é uma tarefa árdua. Qualquer Zé-mané se acha capaz, mas descrever um gol pelas teclas, em tempos de tevê digital e iPod, é pedir para ser tachado de mentecapto.

     

    Agora, quando se consegue escrever bem sobre assunto tão chato atingi-se o que se pode chamar de alta literatura futebolística. E neste degrau temos nomes de grande estirpe: Nélson Rodrigues, Mario Filho e Armando Nogueira são os maiores. Contudo, há aqueles temporários, que só o fazem em raras ocasiões – com em época de Copa – ou para defender suas agremiações. Caso de Luís Fernando Veríssimo, Ruy Castro e Mário Prata. Pensando nesses mestres, pensei em escrever uma crônica falando do meu time, cuja história é curta, mas com várias nuances.

     

    Foi aí que me dei conta: não sei nada (pelo menos não de anos para cá) sobre o meu time. Não sei quem é o goleiro, nem imagino os nomes dos laterais, muito menos as alcunhas dos zagueiros (talvez um deles tenha o sobre nome Alcunha e nem estou sabendo). Nada sobre os meias e nada sobre os atacantes. Técnico, então, nem a primeira letra do nome me vem. “Google, Beto… GOOGLE!” Pois é, até pensei em apelar, mas, peralá!, eu tinha de saber isso. Não adianta ir lá e Ctrl C + Ctrl V nos nomes. Isso não resolve o fato de eu não ir a estádios mais e de me preocupar, atualmente, menos com a fratura de tornozelo do guapo Paranito do que com a visita do Ahmadinejad ao Brasil.

     

    Ou seja, não sou mais aquele torcedor e isso afeta sensivelmente o que poderia vir a escrever. Sem emoção fica difícil e, definitivamente, não me esgoelo mais num gol como antigamente (bom, isso era na época em que eu acreditava em Papai Noel e que o Eurico Miranda, o Farah e o Onaireves Moura eram, só, dirigentes com impostos em dia). Portanto, descobri que não tenho cacife – nem time – para bancar uma crônica desse tipo. Que elas fiquem a cargo daqueles que sabiam e sabem o que fazem. Terei de continuar resignado nessa melancólica falta de assunto e inspiração… ai-ai! 

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    outubro 19th, 2009Beto PachecoCrônicas

    por Beto Pacheco

     

    Deve ser assim, não sei, pois não tenho tal talento (aliás, nem sei se tenho algum). Entra no quarto, senta-se à cama, olha para um lado e vê a janela, espia o outro canto e enxerga o violão. Coça a cabeça, pensa, levanta, anda cinco passos, abre o zíper da capa e pega o instrumento. Papel e caneta. Sol? Lá? Dó? Qual será? Normalmente é amor ou pesar. Alguns fogem à forma básica e satirizam, outros criticam, há os que abstraiam, vá lá.

     

    Será que virá primeiro a letra? A meu ver a música é mais fácil, depois é só encaixar. Gosto daqueles que a fazem em forma de crônica (por que será?), mas os poetas também são deslumbrantes. E os franciscos, então, que fazem ambas, juntas, separadas, tudo ao mesmo tempo… ou não. E saberá ele que já é uma obra-prima, assim, logo de cara? Sei não, pois não sei fazer.

     

    Depois de muito rabisco, rasura, borracha, lápis quebrado, papel riscado, acorde daqui, melodia dali, grava, volta, escuta, repete, de novo, guarda, espera um pouquinho, volta a ela, refaz, relê, aquele maior ficaria melhor menor?, com sétima?, aumentada?, diminuta?, ai-ai, está pronta. E aí, guardá-la ou mostrá-la?

     

    Liga para um amigo: – Você tem que ouvir. Ansiedade. Prepara o ambiente, põe o papel à frente, toma o ar e começa. Três, quatro minutos no máximo, e o amigo ali, só ouvindo. Terminado, “E então, o que achou?”. E a resposta: “Fantástica!” Mais gente escuta, mais gente fala, mais gente incentiva e ele acaba tocando em um barzinho, de banquinho e violão.

     

    Lá, no bar, está um homem “do meio”. Acaba gravando-a. É sucesso. Todos cantam, toca na rádio, programa de auditório, entrevistas, release, jornais e revistas. Marca o primeiro show, e o segundo, e o terceiro e passam os anos. E, a cada apresentação, na hora do refrão, todos em uníssono o acompanham. Passam-se os anos e, um dia, lá no meio da platéia, outro músico, acanhado compositor, o observa. Conhece a letra, entoa as notas em comunhão e sorri.

     

    Quando o show acaba, ele volta para casa. Entra no quarto, senta-se à cama, olha para um lado e vê a janela, espia o outro canto e enxerga o violão. Coça a cabeça, pensa, levanta, anda cinco passos, abre o zíper da capa e pega o instrumento.

     

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    agosto 31st, 2009Beto PachecoCrônicas, Outros autores
     

    por Ivan Angelo (para a Veja São Paulo)

    * procurava há algum tempo uma definição de crônica; achei essa bem interessante e resolvi colocar aqui no blog.

     

    Uma leitora se refere aos textos aqui publicados como “reportagens”. Um leitor os chama de “artigos”. Um estudante fala deles como “contos”. Há os que dizem: “seus comentários”. Outros os chamam de “críticas”. Para alguns, é “sua coluna”.

     

    Estão errados? Tecnicamente, sim – são crônicas –, mas… Fernando Sabino, vacilando diante do campo aberto, escreveu que “crônica é tudo que o autor chama de crônica”.

     

    A dificuldade é que a crônica não é um formato, como o soneto, e muitos duvidam que seja um gênero literário, como o conto, a poesia lírica ou as meditações à maneira de Pascal. Leitores, indiferentes ao nome da rosa, dão à crônica prestígio, permanência e força. Mas vem cá: é literatura ou é jornalismo? Se o objetivo do autor é fazer literatura e ele sabe fazer…

     

    Há crônicas que são dissertações, como em Machado de Assis; outras são poemas em prosa, como em Paulo Mendes Campos; outras são pequenos contos, como em Nelson Rodrigues; ou casos, como os de Fernando Sabino; outras são evocações, como em Drummond e Rubem Braga; ou memórias e reflexões, como em tantos. A crônica tem a mobilidade de aparências e de discursos que a poesia tem – e facilidades que a melhor poesia não se permite.

     

    Está em toda a imprensa brasileira, de 150 anos para cá. O professor Antonio Candido observa: “Até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu”.

     

    Alexandre Eulálio, um sábio, explicou essa origem estrangeira: “É nosso familiar essay, possui tradição de primeira ordem, cultivada desde o amanhecer do periodismo nacional pelos maiores poetas e prosistas da época”. Veio, pois, de um tipo de texto comum na imprensa inglesa do século XIX, afável, pessoal, sem cerimônia e no entanto pertinente.

     

    Por que deu certo no Brasil? Mistérios do leitor. Talvez por ser a obra curta e o clima, quente.

     

    A crônica é frágil e íntima, uma relação pessoal. Como se fosse escrita para um leitor, como se só com ele o narrador pudesse se expor tanto. Conversam sobre o momento, cúmplices: nós vimos isto, não é leitor?, vivemos isto, não é?, sentimos isto, não é? O narrador da crônica procura sensibilidades irmãs.

     

    Se é tão antiga e íntima, por que muitos leitores não aprenderam a chamá-la pelo nome? É que ela tem muitas máscaras. Recorro a Eça de Queirós, mestre do estilo antigo. Ela “não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do crítico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiuçando”.

     

    A crônica mudou, tudo muda. Como a própria sociedade que ela observa com olhos atentos. Não é preciso comparar grandezas, botar Rubem Braga diante de Machado de Assis. É mais exato apreciá-la desdobrando-se no tempo, como fez Antonio Candido em “A vida ao rés-do-chão”: “Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma”. Ainda ele: “Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”.

     

    Elementos que não funcionam na crônica: grandiloqüência, sectarismo, enrolação, arrogância, prolixidade. Elementos que funcionam: humor, intimidade, lirismo, surpresa, estilo, elegância, solidariedade.

     

    Cronista mesmo não “se acha”. As crônicas de Rubem Braga foram vistas pelo sagaz professor Davi Arrigucci como “forma complexa e única de uma relação do Eu com o mundo”. Muito bem. Mas Rubem Braga não se achava o tal. Respondeu assim a um jornalista que lhe havia perguntado o que é crônica:

     

    – Se não é aguda, é crônica.

     

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    agosto 25th, 2009Beto PachecoContos, Crônicas

    por Beto Pacheco

     

                O redator começa a escrever:

                Logo após o término da peça, o pequeno Bruce e seus pais saem do teatro e se encaminham para o carro através de um beco…

                – Hei, pode parar com essa história!

                – Quem tá falando?!

                – Sou eu, oras!, o Sr. Wayne.

                – Ahn?!

                – Isso mesmo, seu escritorzinho de meia-tigela. Já estou cansado de ser morto na primeira página. A partir de agora, quero ir até o final.

                – Mas você é só um personagem, como pode falar?

                – É só colocar o travessão na frente da frase, mas isso não vem ao caso. Faz cinquenta anos que acabam com a minha chance de virar estrela. Assim não é possível. Sou rico e poderoso, posso ser muito mais do que esse pirralho do Bruce. Mas, não! Vocês acham que o pai tem que morrer. Senão, qual será o drama a impulsionar a aparição do “grande” Batman? Ridículo!

                – Mas essa sempre foi a história do Morcego. Sem contar que esse modelo faz sucesso há séculos. Relembra as grandes tragédias…

                – Blá, blá, blá… Não vou morrer e pronto.  

                – Impossível! O que os milhões de fãs ao redor do mundo vão dizer? E tudo o que foi produzido até hoje, jogaremos no lixo?

                – Você fala isso porque fica aí, do outro lado, só replicando a mesma lengalenga de sempre. Não vive a minha rotina. Já pensou o que é, eternamente, ver a mesma peça, dizer as mesmas falas, fazer o mesmo trajeto e, pior!, sempre com a mesma mulher.

                – Deus me livre!

                – Tá vendo?! E tem mais: ela é o diabo. Fica repetindo o tempo todo: “Você é um imprestável. Sabe que se nós formos por aquele beco vai dar m…” Rapaz, não aguento mais.

                – Nossa, é mesmo. E por que você aceita uma coisa dessas? Se fosse comigo, já tinha me separado há tempos.

                – Você é um cara-de-pau mesmo. Sabe que bem que tentei, mas vocês sempre me fuzilam antes que eu possa fazer qualquer coisa. É entrar neste maldito beco e pimba! A culpa é sua, sabia? Sua e daqueles que o precederam, sempre se escondendo atrás das penas, das máquinas de escrever ou dos computadores. Agora, você vai me ajudar. Pode continuar a história, mas me mantendo nela até o final.

                – Tá maluco?! É o meu emprego que está em jogo. Não vou mudar um clássico, escrito há décadas, porque você está em crise conjugal. Essa briga não é minha. Desculpe-me, mas cada um com seus problemas.

                – Espera…

                – FIM.

               

                Atordoado, o redator deixa o “morcego” para mais tarde e parte para outra história:

                Amanhecia em Krypton…

               – Hei, pode parar!

     

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