Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-
Mascote
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janeiro 18th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
O Brasil é, realmente, o país da piada pronta – como diz Zé Simão. Ouvi (ou li, sei lá) que andam pensando em escolher como mascote para a Copa de 2014, que será aqui no Brasil, o Saci Pererê. Pois é… Assim, nada contra o Saci, que até acho um personagem bacana, parte de nossa cultura, blá, blá, blá, mas, péra lá, cada macaco no seu galho.
Gente, a meu ver, não deve funcionar muito bem como mascote de uma Copa do Mundo de Futebol – mais uma vez: futebol – um personagem que só tem uma perna… Vai que o Seu Saci cai sentado numa tentativa de passe. E se fosse pra dar uma pedalada, então? Entenda, não é um pensamento preconceituoso, pois sou um entusiasta da diversidade e incentivo a pratica do esporte, independente da necessidade de adaptação, como fator determinante de integração social e atitude saudável. Contudo, a questão em jogo aqui é a construção simbólica que implicaria essa escolha.
O Saci, além de um pé só (não dizem que jogador perna-de-pau normalmente tem dois pés esquerdos; que se dirá de alguém que tem um só?), é tido como um menino peralta, chegado a traquinagens, e não vejo como positivo tal escolha para representar um país que pretende mostrar-se amadurecido, responsável, profissional e capaz de produzir um evento de tamanha magnitude. Ou seja, deixo claro mais uma vez, a questão, obviamente, não está no físico, mas nas atitudes.
Para piorar (continuo falando das atitudes), o danado do sacizinho fuma cachimbo… e aqui o bicho pega. Sou antitabagista ferrenho. Não suporto cigarro e, mesmo que a minha opinião sobre o assunto seja (e é) irrelevante, convenhamos: é inadmissível um mascote fumante – seja de cachimbo, charuto, cigarro ou palheiro. “Poxa, Beto, mas este Saci que será mascote da Copa não fumará.” Péra lá, para tudo. Se for para homenagearmos um personagem do folclore, façamos direito e tratemos de não descaracterizá-lo.
Além do mais, o tempo que levaríamos para explicar o porquê da escolha, o que o Saci representa, como ele foi inserido na cultura popular e qual a sua personalidade seria demasiado longo para a voracidade da mídia esportiva que, no fundo no fundo, quer ver bola na rede. Basta ter como exemplo o tal do Izzy, o mascote das Olimpíadas de Atlanta, que até agora não se sabe o que é, para que serve e, quiçá, se é deste planeta. Claro que o Saci, ao contrário, carrega todo um embasamento histórico – diferentemente daquela “coisa” escolhida em 1996 –, mas não creio que ele se encaixe neste evento especificamente.
Agora, caso queiram porque queiram que ele seja o nosso mascote, tudo bem, só aproveito e mando um adendo: por que não escolhemos dois mascotes? Mandamos o escrete canarinho com Saci Pererê na ponta-esquerda (ou direita, vai que ele é destro) e o Curupira de centro-avante (ou centro-atrás, difícil saber). Só tenho medo que ele emende o cruzamento do Saci de primeira e a gente perca por 1 X 0… com um gol contra.
Tags: Brasil, Copa, Copa do Mundo, Copa do Mundo de Futebol, Copa no Brasil, Esporte, Futebol, Humor, José Simão, Mascotes, Mascotes da Copa, Mascotes de Olimpíadas, Saci, Saci Pererê, Semiótica, Símbolo, Sociedade -
janeiro 15th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Cada vez mais eu creio que uma das condições básicas para se atestar a humanidade de um ser-vivo é o índice de maluquice que ele alcança. É sério, a cada dia o mundo vê aumentar a quantidade de tan-tans que nele habitam. E quando digo tan-tan, é tan-tan mesmo. Pinel. Não que seja coisa só dos dias do hoje, haja vista o Calígula, que nomeou o próprio cavalo para senador. Segundo os historiadores (sempre eles!), o equino tinha direito até a toga na cor púrpura, aposentos de mármore e refeições à base de aveia e leite. E o Haiti naquelas…
O problema, a meu ver, é que a loucura tem se espalhado por todas as classes, cores, credos e perdeu o pudor. Antigamente, ela ficava restringida a imperadores, reis, monarcas, príncipes… essas figuras que, de tanto ter, não sabiam mais o que fazer da vida e ficavam caçando sarna pra se coçar. Agora, não. O troço descambou. Basta colocar uma câmera de tevê num calçadão de qualquer capital brasileira para ver a turba que junta em volta.
É neguinho dançando o Créu, popozuda querendo virar celebridade, artistas dos mais variados “talentos” querendo mostrar seus dotes custe o que custar, outros mandando beijo pra sogra, etc. E não bastassem os populares na realidade, virtualmente a telinha ainda nos brinda com seus reality shows e uma infinidade de camisas-de-força que se superam ano após ano. Pior!, agora existem as paródias dos reality shows – à la Pânico na TV e suas Panicats. Bom, pelo menos umas delícias em carne e osso a loucura nos reserva, senão era o fundo do poço com pá a tiracolo.
Indo mais embaixo ainda na escala da visibilidade da insanidade, e partindo em vertiginosa queda, chegamos aos malucos ocultos. Eles são a última linha antes da piração total – caso este que só se resolve com internamento e quarto acolchoado. Esses malucos não são reis, não são celebridades tresloucadas, muito menos populares que se jogam às ruas em busca de 15 minutos. Estes, ao contrário, são reclusos.
Eles ficam em suas casas e fazem coisas retardadas pelo puro prazer que lhes causam as bizarrices que planejam. Contudo, para o deleite dos expectadores afoitos que não se aguentam e precisam porque precisam chafurdar na desgraça alheia, há a internet. E da internet ninguém escapa. Dúzias de sites, editorias, blogs e portinhas digitais (dê-lhe Youtube), trazem as novidades relacionadas às loucuras pessoais inerentes a essa raça que surpreende cada vez mais por ter conseguido – sendo como é – conquistar o mundo.
No portal G1, da Globo, há uma editoria chamada Planeta Bizarro. Nela o desfile é diário e incessante. Por exemplo: descobri por lá que uma mulher guarda na geladeira, desde 1977, uma bola de neve… isso mesmo que você leu. Um dia, lá em 1977, nevou na terra da dita-cuja. Daí ela teve a brilhante ideia de pegar uma bola de neve e guardar para todo o eterno sempre. Sinceramente, tem coisa mais retardada que isso?! Se sim, me conte, pois vai merecer outra crônica.
E não para por aí. Vejam outras manchetes que encontrei:
Gato é convocado para júri nos Estados Unidos
Jovem inova e faz tatuagem de óculos no rosto
Clube de Los Angeles tem striptease com personagens de ‘Star Wars’
Ladrão é flagrado de lingerie
… sério, eu podia ficar o dia todo relatando, relatando e não ia acabar nunca. Só não o faço porque ia acabar entrando para a lista.
Tags: Comportamento, Humor, Loucura, Mídia, Mundo, Planeta Bizarro, Sociedade -
janeiro 13th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Atenção!, moradores dessa singela praça denominada, pelos índios de outrora, como Core-Etuba (que, dizem os entendidos, significava “Pinhão pra dedéu” – ou algo do gênero): Curitiba e sua região metropolitana – que devia fazer parte também da tal Core-Etuba, pois São José dos Pinhais não me parece propriamente um nome tupi – receberão R$ 440 milhões para a Copa.
O dim-dim vem do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) – cujo nome mais parece um tratamento para rebentos de casais de jóqueis. Pois bem, o dinheiro será destinado, basicamente, para a infra-estrutura viária. Ou seja, tapar buracos, sincronizar semáforos, trocar os petit-pavês por concreto, etc. Eu ainda acho que uma parte podia ser destinada para ajeitar o cabelo da dona Dilma, mas isso é papo para outra crônica.
Voltando, acho bacana Curitiba ganhar uns trocos para se ajeitar. Pelo que andei ouvindo por aí, parece que o principal canteiro de obras será a Avenida das Torres Assim sendo, teremos um acesso mais fácil ao aeroporto… Ah, o senhor só tem dinheiro pra andar de ônibus, seja interestadual ou mera condução? Bom, então, alegre-se, porque uma das melhorias prevista é a instalação de um sensorzinho inteligente – chamado Sistema Integrado de Mobilidade (SIM) – no buzão que alertará o semáforo e dará prioridade ao coletivo. Para mim, uma maravilha, pois sempre achei pequeno-burguesa essa história de cada um ter seu próprio veículo.
O fato é que a dona Avenida das Torres sofrerá uma “revitalização completa” (as palavras não são minhas, mas do jornal que li). Beleza! Imaginem só, tudo revitalizadinho, limpinho, concertado com cores mais atraentes, piso novo – com pedras importadas de jazidas africanas –, iluminação inspirada na noite parisiense e um bando de arquitetos vanguardistas saltitando de esquina em esquina para transformar a boa e velha Torres num moderno e convidativo hall de entrada.
Contudo, há um grande, grandessíssimo problema nessa plástica na Sra. Torres: vão tirar de lá justamente sua mais marcante característica… as torres. Gente (o Beto disse “Gente!” pela primeira vez em 2010), tirar as torres da Avenida das Torres é como querer ajeitar a napa do Cyrano de Bergerac. A napa do Cyrano é a própria personalidade dele, assim como são as orelhas do Rei Charles, a pança do Jô Soares ou os peitos da Fafá de Belém.
Pior: se tirarem as torres da Avenida das Torres, como, diabos!, vamos chamá-la? Tudo bem, eu sei que ela tem um nome “oficial” que é… é… hum… como chama mesmo?… deixa eu fuçar no Google aqui… Sim, Comendador Franco, mas, a meu ver, denominá-la assim seria como parar, de uma hora para outra, de chamar o Pelé de Pelé e passar a chamá-lo de Edson. Convenhamos, não dá. Antes “Avenida Sem Torres”, ou “Avenida ‘dos’ Sem-Torres”, ou então “Avenida do PAC”, sei lá, qualquer coisa mesmo, menos Comendador Franco. Nada contra a família Franco e seu homenageado, é apenas uma preocupação com a identidade da cidade (falei bonito agora, diz aí).
Tags: Copa, Curitiba, Governo, Humor, Infraestrutura, Investimentos, PAC, Sociedade -
janeiro 12th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Falemos a verdade: a desgraça alheia é o nosso esporte favorito. Assistimos a vídeos cacetadas, torcemos para que o piloto de Fórmula 1 se esborrache no muro, ficamos vidrados na tela quando a pancadaria rola solta nos estádios (com um misto de indignação, é verdade, mas que não esconde um prazer disfarçado), assistimos a gafes de apresentadores e celebridades com uma pitada de sabor… “Ah!, eles também erram”.
Agora, fazia tempo que eu não via alguém saber de véspera que podia acontecer uma cagada (sim, eu escrevo palavrão) e não fazer nada. Pior, armar o tripé, a câmera e, click, levar o pacote alheio como furo de reportagem… com direito à capa e tudo. No último sábado (09/01), na capa do jornal Gazeta do Povo, saiu uma sequência hilariante de um “bicicletista” (pois ciclista, para mim, é quem compete; Barra-Forte não conta) naufragando em plena enchente litorânea.
Gente, o fotógrafo foi até àquela rua para fazer imagens da inundação e, provavelmente, presenciou algum acidente previamente – ou passara por lá no dia anterior e sabia que no meio do caminho tinha um buraco, tinha um buraco no meio do caminho (eita!, seu Carlos, o senhor nunca envelhece). Pois não foi que – de maneira sagaz, é bom que se diga – o gajo, sabendo da armadilha, posicionou-se com a sua câmera em um ponto estratégico, apenas a esperar.
A chuva caía, caía, a água subia, subia e lá vinha pela hidrovia o seu Nilson Espigaris, pilotando a sua enferrujada Barra-Forte, de sacola e guarda-chuva em punhos – quase uma mistura de Mary Poppins, E.T. (em fuga, na cestinha da bicicleta) e Capitão Nemo – quando, pimba!, abriu-se um buraco negro em sua frente. Rapaziada, o cara, literalmente, submergiu. Foi um mergulho no escuro. O pneu da frente travou e a bike empinou jogando às águas. Só faltou o pescador que caminhava ao largo gritar “homem ao mar!”
Ao lado, passava uma caminhonete, que, por pouco, não atropela o seu Nilson. Enquanto isso, o fotógrafo estava lá, todo pimpão, só clicando. Confesso que, ao ver a sequência, peguei-me rindo. E a pergunta é: faria eu o mesmo que o fotógrafo? Ou tentaria sinalizar de alguma forma o perigo? Sinceramente, não sei. Acho que, por ser da profissão, eu me vestiria de fotógrafo e não de escoteiro. Sei lá, um verdadeiro dilema, né não?
Tags: acidente, Chuvas, enchente, fotojornalismo, Humor, inundação, litoral, Matinhos, praia, Sociedade, verão
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dezembro 14th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Admito: caí na moda como todo mundo… agora jogo pôquer uma vez por semana com um grupo de amigos. E digo moda, e não vício, porque eu não fico viciado em nada – deve ser uma mutação, sei lá. Por exemplo: posso beber todo dia, todo dia mesmo, que não fico viciado. Se numa ou outra semana bebo mais que na outra é pura e simplesmente por casuísmo e vontade própria. E isso acontece também com o pôquer. Se jogarmos mais de uma vez na mesma semana é por que achamos divertido. Divertido e ponto.
Foi o caso de sexta passada, quando jogamos uma partidinha que prometia acabar cedo e ficamos até as 6 horas da matina na peleja. Bom, não preciso nem dizer que uma das rodadas quem ganhou foi o degas aqui (tá bom, sei que degas é antigo, algo que não condiz com a minha mocidade, então prometo me redimir daqui pra frente e ser mais moderninho… só não me peçam pra ir ao show do Fresno, pois ser moderno não tem nada a ver com autoflagelação).
O fato é que o pôquer é um jogo pensado única e exclusivamente na reunião dos amigos. O baralho, as regras, o dim-dim, são simples firulas. O que vale mesmo é a confraternização. Se bem que há casos extraordinários. Algumas vezes a pessoa se preocupa por demais com o desempenho. Acredito que seja uma forma de querer pôr a virilidade à prova, algo assim. Portanto, para alguns, jogar bem é ser, digamos, mais fodão (desculpa pelo palavrão, mãe) que os demais. Partindo desse pressuposto, ser taxado como mau jogador ou cometer erros crassos torna-se inadmissível – algo capaz de deixar o gajo tremendamente desacorçoado.
Um bom exemplo foi o Alexandre que, dia desses, ganhou por pura sorte (obviamente, neste dia eu não estava presente) ou por uma tremenda conspiração – à base de deboche, é bom que se diga – celestial. É sério, não há como ele ganhar se não for com ajuda paranormal. E, caro leitor, nem queira ficar com pena, pensando que estou exagerando. Quer ver só? Ele teve a capacidade de apresentar na mesa – apostando 75% do seu patrimônio de fichas – uma sequência que ia de dama a três. Gente (o Beto disse “gente”!), sequência de dama a três não existe nem em baralho de mágico.
Pior. Depois dessa, às mínguas, ele não se deu por satisfeito. Armou aquela cara de quem-não-tem-nada-mas-tá-blefando, encheu o peito, largou as cartas na mesa e soltou o grito, à la Silvio Santos, da garganta: “E a caravana das trincas vem da onde?” Crente de que tinha uma trinca não mão, daquelas que não perdem para ninguém. Pois a trinca era formada por um oito, um nove e um dez de paus… Pois é. Ninguém se conteve, o que gerou uma gargalhada geral da mesa. O Ale ameaçou ir embora, mas conseguimos contê-lo mostrando as fichas (parcas) que ele tinha e reforçando que ainda havia a possibilidade da volta por cima – é, eu sei, fomos um tanto quanto cruéis.
Mas, tranquilo, hoje tem mais e o Alexandre estará presente. O que é garantia de risadas, surpresas e de que a probabilidade de vitória aumenta para os demais… pois ele não é café-com-leite, mas certamente é carta fora do baralho.
Dica: leia a crônica “Pôquer Interminável”, de Luís Fernando Veríssimo.
Tags: Baralho, Cotidiano, Humor, Jogo de Baralho, Luís Fernando Veríssimo, Poker, Pôquer -
outubro 26th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Rapaziada, o que é a tecnologia, não é mesmo? Celulares, iPod, notebooks, microondas, tevê a cabo, bluetooth, MSN, miojo… tudo pra facilitar as nossas vidas (ou não). Um amigo meu, veja vocês, que é deficiente visual, fala comigo direto no MSN. Ele tem um software que lê pra ele tudo o que escrevo (e um teclado em braile pra responder). Sem falar no celular dele, que também é uma façanha. A danada – sim, pois a voz do celular é feminina (e ele é cego, mas de bobo não tem nada) é tão esperta que diz pra ele quem está ligando, lê as mensagens, localiza os nomes no menu de contatos, dá dica de receitas e conselhos amorosos.
Mas a tecnologia está tão avançada que não para em softwares que, apenas, soletram nomes e mensagens. Outro dia, fui a um barzinho com amigos e, ao ir embora, ofereci uma carona a um deles. O problema é que o rapaz morava em Foz do Iguaçu e está em Curitiba há pouco tempo. Portanto, não conhece nada da cidade. O que inclui a própria morada. Ahá!, mas é nessas horas que a inventividade humana se sobressai. Ele carregava um celular multi-multi-multimídia que tinha (entre canivete suíço, tevê e forno elétrico) um GPS embutido. Entramos no carro e perguntei:
- Onde você mora?
- Perto do Jardim Botânico.
- Perto onde?
- Calma, vou ligar meu GPS.
Pois é, ele não sabia dizer. Só repetia o mantra: “Escute o GPS, escute o GPS”. Fui seguindo rumo ao Jardim Botânico e o GPS dando as dicas, “Mantenha-se à direita. Em 200 metros, entre à direita”. Maravilha, né não? Seria, se eu não estivesse sobre um viaduto e não tivesse nenhuma entrada nem a 200 metros, nem a 300, nem a 400… fosse à direita ou à esquerda. Achei melhor, então, seguir meu próprio caminho até o Jardim Botânico e deixar a “ajuda” do GPS pra mais tarde, quando estivéssemos perto do ponto final.
Enquanto o GPS falava, “Em 200 metros, entre à direita”, eu virei à esquerda e peguei um atalho. Não devia ter feito isso (ou melhor, devia sim. Caso contrário estava parado em cima do viaduto até agora). O aparelhinho pirou e começou a falar sem parar “Recalculando trajeto. Recalculando trajeto”. Eu já dirigia havia uns cinco minutos em outra rota e o danado do GPS lá, “Recalculando trajeto”. Pensei cá com os meus botões, que não são nada tecnológicos: “Melhor desligar essa porcaria”. Contudo, nem eu nem meu amigo sabíamos como chegar na casa dele – sem contar que o GPS, sem pudor algum, me alertou ao pensar isso: “Se me desligar, irá se arrepender”. Ou seja, estávamos de mãos atadas e acabara de descobrir que o malandro, além de tudo, também lia pensamentos.
Felizmente, de uma hora pra outra, o GPS se restabeleceu e colou os parafusos no lugar: “Siga em frente”. Obedeci. Segui, segui… “Continue em frente”… e eu seguindo, seguindo. “Vire à esquerda”, e eu virei (dessa vez tinha rua). Pronto, conseguimos chegar. Graças à tecnologia e a um atalho, pego após um pequeno erro do aparelhinho. O que, confesso, me preocupou. Afinal, se o GPS foi capaz de errar, como nós fazemos seguidamente, é bem possível que cumprisse a promessa e, em vez de lhes contar essa historinha, eu ainda estivesse perdido (ou pior)… e muito, muito arrependido de não lhe dar ouvidos.
Tags: GPS, Humor, Tecnologia -
outubro 13th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Vamos falar a verdade: camisinha é um saco (quase que literalmente). Tem coisa mais incômoda e inconveniente do que um pedaço de borracha a envolver o malandro na hora em que ele mais quer se divertir? Não. Definitivamente, não. Você lá, naquele calorão, euforia, rasga roupa daqui, arranca meia dali, sobe, desce, desce, sobe e… freia tudo! “Querido, coloca a camisinha”. Que tristeza. Eu sei, eu sei que é importante, que é uma questão de saúde, de prevenção, de responsabilidade, de contracepção, mas, convenhamos, é muito primitivo.
A camisinha é um treco danado de antigo e decorre, segundo estudiosos, de civilizações anteriores a Cristo (cuja igreja oficial – a qual, dizem, ele pertence – não aprova o preservativo). Puxa vida!, será que não conseguiremos criar – e já faz dois mil anos que vivemos esse martírio – algo mais moderninho do que essa capinha emborrachada? Sei lá, uma vacina, uma pílula, um spray, qualquer coisa. Ou, já que não fomos capazes de avançar tecnologicamente no assunto, que, pelo menos, tentemos facilitar a vida na hora do rala-e-rola.
Eu lembrei, por exemplo, de um mecanismo que poderia inspirar nossos cientistas a bolar uma saída mais rápida e prática na prévia do sexo – aquela maldita e infinita hora em que se coloca a camisinha. Sabe aqueles carros modernos que, ao você entrar e fechar a porta, automaticamente posicionam o cinto de segurança no lugar? Então, imagine uma calça ou bermuda que tenha um badulaque que fique por dentro com a camisinha previamente posicionada. Basta você tirar a calça e, vlupt!, ela automaticamente engata o preservativo na parte que lhe cabe.
Seria fantástico! Você prestes a dar aquela rapidinha – clássica e emocionante – no carro, no elevador, no corredor, atrás de uma moita, ou seja lá onde seu fetiche caiba, e, ao tirar as calças, vlupt!, a camisinha está lá antes mesmo que você possa dizer Pindamonhangaba (sei lá por que escolhi Pindamonhangaba, mas agora já foi). Não resolveria de todo o problema, é fato, que não está só no colocar, mas, também, no horrível ralar de borracha, nhec-nhec-nhec, mas, vá lá, teríamos meio-caminho andado.
Contudo, dois empecilhos precisariam ser resolvidos para que tal engenhoca dê certo. Primeiro, o companheiro dos países-baixos teria que estar em posição de sentido para que o preservativo o vista sem problemas. O alerta viria no manual de instruções, que, obviamente, deveria ser lido previamente. “Peraí, querida, antes de tirar as calças eu preciso ler o manual.” Convenhamos, uma atitude dessas inutilizaria os benefícios da maquininha.
O segundo é criar um chip que fizesse a leitura da situação. Como assim? Explico. Vai que o rapaz, cujas calças carregam o P.A.C.T. (Preservativus Automaticus Colocators Tabajara) está, simplesmente, indo ao banheiro. Chega lá, esquece da ferramenta, abre a braguilha e, vlupt!, és encapado antes mesmo de colocar o líquido pra fora. Deus o livre! Ainda mais se o coitado estiver apertado. É…, tomara que a ciência evolua, caso contrário o negócio é continuarmos com o atual método, tão primitivo quanto essa deturpada mente que vos escreve.
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outubro 6th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Digamos que o casamento seja liberado aos padres… Já pararam para pensar?
É simples: todo mundo sabe que, mesmo proibidos, alguns padres sempre deram um jeitinho por baixo dos panos – ou das batinas, sei lá. Não podendo casar oficialmente, eles conseguem usufruir sem terem que assumir. Ao liberar o casamento, a Igreja, simplesmente, tornaria a vida deles um inferno.
Imaginem vocês o vigário tendo que explicar para a esposa que, em pleno domingo, tem missa às sete, às dez, almoço na paróquia, encontro de jovens (jovens, sei, sei…), missa às dezenove e que só chegará em casa depois das vinte e duas. É morte na certa. Pior: quem é que faria a extrema-unção do padre finado?
- Chama o bispo! Chama o bispo!
- O bispo não pode, teve que ir buscar a sogra na rodoviária.
E a mulher do coitado, fula da vida, só de olho na loira que sempre senta na primeira fila durante a missa. O rapaz lá no altar, trabalhando, concentrado, e a esposa proferindo insultos sobre a sem-vergonha. Quando chega o momento da “paz de cristo”, as duas já estão rolando no chão, descabeladas.
E se a esposa frequentar a mesma paróquia, vai se confessar com o marido?
- Reze 18 ave-marias, 15 pais-nosso, e tudo ajoelhada no milho!
- Mas eu não fiz nada, querido!
- Viu só? É pelo pecado da mentira, meu bem.
Ou então:
- Padre, eu pequei.
- Eu sei, minha filha. Agora, fale baixo que a minha mulher pode escutar.
Padre bonitão, então, seria um problema. Teria gente se entregando desde cedo:
- Quem chegar por último é mulher do padre!
- Ai! Torci meu tornozelo… Perdi.
Os problemas são infinitos e atingem toda a comunidade. Pense na família do padre. Claro, pois ele também teria filhos. Com as coisas custando os olhos-da-cara, e precisando comprar fralda, leite, remédios, roupinhas, etc., o dízimo certamente seria inflacionado. Não passariam mais cestinhas e, sim, bacias para recolher o dinheiro da comunidade.
E ai de quem não colaborasse…
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setembro 24th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Alguém (que não lembro quem foi) disse certa vez (que não lembro quando foi) que você não escolhe ir à guerra e, sim, a guerra escolhe vir até você. Concordo, ainda mais depois da tarde de hoje. Eu estava tranquilão trabalhando no meu computador, coisa que faço todos os dias, mesmo depois de trabalhar a noite toda (trabalho em vários turnos – diurnos e noturnos), tocando e escrevendo, quando resolvi ir à cozinha pegar algo para comer. Pois foi nesse momento que vi as tropas inimigas marchando rumo ao alvo: um bolo de chocolate que estava sobre a mesa.
Formigas, rapaziada, muitas, mas muitas formigas. Seguiam alinhadas, como tropas treinadas, porta adentro. Num primeiro momento, fiquei sem reação. Pensei em ligar para o 190 a princípio, mas daí pensei: Beto, você é um homem ou um rato? (creio que isso tenha sido dito outrora por alguém também – cujo nome não me recordo. Acho que estou com problema de memória). Levei alguns segundos até me recompor e planejar minha ação.
Primeiro, calculei a distância entre a porta e a mesa para ter uma noção da quantidade de inimigos que enfrentava – é sempre importante conhecer o inimigo e, principalmente, quantos são. Após terminar a contagem, percebi que teria dificuldade em vencê-las. A questão era: que armas usar? Comecei com uma vassoura (sei que parece cruel, mas você pensa assim porque nunca enfrentou inimigos tão decididos) e varri sem dó as formiguinhas para fora de casa. Depois, transferi o bolo de posição e passei um pano sobre a mesa para dar o trato final.
Não sofri nenhuma retaliação e julguei ter vencido a batalha. Como já tinha, além de duelar com as formigas, trabalhado tudo o que devia (uma pegada na madrugada, de violão em punho, e outra à tarde, escrevendo, atualizando site e “marketiando”) decidi dar uma volta com o meu cachorro. Minutos depois, voltei para casa e deparei-me com o horror… elas voltaram. A mesma fila, o mesmo bolo, a mesma cara-de-pau de invadir a casa de gente de família para roubar descaradamente a despensa alheia. Pois fale mal do meu cabelo (falta de), da minha pança de cerveja, da minha preguiça crônica, mas não mexa com a minha comida. Agora era guerra!
Vassoura de novo; só que, dessa vez, varri as danadas até a rua, sem dar chance para que encontrassem o caminho de volta. Mordendo os lábios de raiva, peguei álcool e borrifei no chão todo – para inibir o olfato das lazarentas. Joguei o bolo no lixo e lavei toda a louça (atitude louvável e rara, é bom que se diga). Contudo, eu sabia que não bastava. Precisava atacá-las em seu quartel general… e foi o que fiz. Segui o rastro até descobrir de onde elas partiam: um buraquinho que ficava sob uma lajota trincada, lá na garagem.
Lembrando os meus tempos de piá (ou guri, garoto, menino, moleque, para os não curitibanos), decidi usar armas químicas (que a ONU me perdoe…) e taquei detergente na porta do QG inimigo (fui bacana, diz aí, pelo menos não usei uma lupa para tostá-las). As formigas não apareceram mais, o que me faz pensar que venci a guerra. Só tenho medo de ser arrastado da minha cama, por vingança, durante a noite. Mas vou preparar armadilhas e alarmes ao redor para evitar possíveis problemas… Ah, e amanhã vou comprar um novo tubo de detergente.
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setembro 10th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
- Sabe o Pedro, o Grande?
- O Pedrão?
- Não, tô falando do tzar…
- Não sabia que era esse o apelido dele. Por que tzar?
- Tzar não é apelido.
- Ah ta, se você diz…
- Você sabe o que é um tzar?
- Claro que sei…
- Então diz aí o que é.
- Se você não sabe não sou eu que vou ficar ensinando.
- Tzar era o título conferido ao imperador da Rússia. Um monarca. Aliás, vários monarcas tinham codinomes.
- Tipo?
- O Alexandre da Macedônia, por exemplo, também era chamado de O Grande.
- E ele pagou royalties para o Pedro?
- Claro que não, até porque ele é anterior ao Pedro.
- Entendo.
- Mas tem uns que são engraçados…
- Uns o quê?
- Codinomes.
- Por exemplo?
- Tinha o Átila, o Huno.
- Grandes coisas, eu tinha um fusca chamado Galeano.
- Idiota…
- O fusca ou o uno?
- Deixa pra lá…
- Quem mais tinha, conta aí.
- Bom, na Inglaterra, que é terra de reis há séculos, apareceram vários. Muitos se chamavam “Grande” também, mas havia espaço para outros…
- Conta…
- Ah, tinha o Eduardo, o Velho; outros que se chamavam O Glorioso; O Justo, O Conquistador… esses, ao meu ver, se autointitularam.
- Captei. Quer dizer que alguns foram intitulados depois?
- Óbvio.
- E como se sabe quem se autointitulou e quem foi intitulado.
- Pelo título, oras!
- Explique-se melhor…
- Os outros eram: O De Joelhos Fracos; O Despreparado; O Mártir; O Breve…
- É, com certeza eles não iam se autoproclamar dessa forma.
- Não. Assim como alguns franceses.
- Bom, problema seu, cada um come aquilo que lhe convém…
- Não, idiota!, o que quero dizer é que os reis franceses também tinhas seus apelidos curiosos.
- Ah bom!
- Tinha O Calvo, O Gago, O Gordo, O Jovem, O Alto, O Comprido, O Caolho…
- Pelo visto, francês tem problemas com a aparência.
- Pois é. Já em Portugal, tivemos Dona Maria I, a Louca.
- Louca mesmo? Tipo o Louco da Turma da Mônica?
- Muito mais louca. Dizem que, quando as tropas de Napoleão estavam para invadir Portugal, ela precisou ser embarcada à força no momento da fuga, pois acreditava estar indo para o inferno.
- E para aonde estavam fugindo?
- Para o Brasil.
- Hehe, vai ver que de louca ela tinha pouca coisa.
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Tags: Diálogo, História, Humor, Mundo, Personagem





