Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-

por Beto Pacheco
Além da minha própria (obviamente) apresentação de TCC, assisti, na época em que estava me formando, a outra, de um grupo de amigas. Elas fizeram dois produtos: um documentário e um livro-reportagem – ambos muito legais – sobre o uso de espaços alternativos para a expressão de ideias, pensamentos, críticas, etc. Coisas como protestar pichando muros, mandar recadinhos em porta de banheiros públicos, colar cartazes criticando a sociedade em postes de iluminação pública, entre outras. Um ótimo trabalho e extremamente criativo.
Há tempos, espaços e meios alternativos são usados para que possamos nos comunicar. Bilhetes de socorro deixados em garrafas, para-choques de caminhões, post-it na geladeira e por aí vai. Contudo, estamos na Era da Informação. E da informação digital. Foi-se a Esfera Privada. Não existe mais o romantismo e a discrição coisa. Todo mundo sabe tudo, vê tudo (querendo ou não). Basta googlar. Basta entrar no Orkut, Twitter, Facebook ou MySpace. Acho espaços bacanas, fundamentais para a divulgação de trabalhos, envio de convites, encontro de velhos amigos, espionagem da vida alheia e compartilhamento de toda sorte de traquitanas.
Contudo, há os exageros. E eles aparecem quando usamos isso para mandar “recados”… daqueles com aspas. E aí chegamos aonde eu queria: às frases do MSN. Gente, é praticamente um diário (aberto ao público). Todo mundo fica sabendo se a pessoa está feliz; se está triste; se está namorando; quando começou; qual o grau de paixonite; se o amor está declinando; se acabou; se a pessoa está com raiva por conta disso; se superou; se achou outro; se quer morrer; pular da ponte; se vai casar; se ficou noivo(a); se, quando, onde e como rolou o pedido, etc., etc., etc.
A partir daí, temos uma segunda fase. A primeira foi a da incontrolável vontade de expor ao mundo o que rege o momento em que cada um vive. A segunda é a forma. Há aqueles que são diretos em suas frases, há os literários, os filosóficos, os metafóricos, os que escolhem frases musicais e os que colocam aquelas caretinhas do Smile.
Os que são diretos já declaram, sem pudor, que encontraram o amor da vida. A tampa da panela, a alma gêmea, a tão procurada encruzilhada de ambos os destinos. Ai, Ai! Duas semanas antes estavam solitários, crentes de que ninguém no mundo presta e que passariam a eternidade sem dar chance a mais ninguém. Duas semanas depois voam pombas brancas, rosas vermelhas e anéis dourados camuflados nas frases do MSN. Dá vontade de bocejar.
Os literários escolhem uma frase chique, dita por alguém de renome (normalmente um nego que nunca leram e cuja frase copiaram do MSN de outra pessoa que também não leu o dito) e colam lá com ar de que só eles tiveram o afã de achar sapiente comentário. Tem um maldito poema – das borboletas, ou da busca das borboletas, ou do jardim das borboletas, sei lá eu – do Mário Quintana que é campeão de audiência neste quesito.
Os filosóficos escrevem uma parada – bonita, vá lá – que poucos entendem, cuja curiosidade instiga pela construção, mas que não chega a nenhuma conclusão final. O que está escrito ali diz respeito apenas à pessoa, ao contexto dela ou à mente convexa da mesma. Daí você fica pensando: já que só ela entende e que só a ela diz respeito, por que, raios!, colocou ali?
Os metafóricos usam de figuras de linguagem para expor o seu estado de espírito. “O sol vai raiar na alma daqueles que passeavam pelo jardim no dia que as flores desabrocharam…” e blá, blá, blá. Estes normalmente têm, naquele momento, a certeza de terem escolhido uma frase que traduz uma verdade absoluta. Pelo menos até o dia seguinte, quando alguma coisa acontecer, mudar toda a verdade até então estabelecida e ele ter de mudar para mostrar a todos os demais – tanto os que têm, quanto os que não têm nada a ver com a peteca – o que acontece em sua vida.
Os das frases musicais têm seus clássicos pré-estabelecidos. Funciona assim: Para comentários do tempo, Jorge Benjor (Santa Clara clareou, Chove Chuva, Lá Fora está chovendo…). Os apaixonados – babões – letras de música sertaneja (não sei dar exemplo porque não conheço nenhuma das novas duplas do “sertanejo-universitário). Já os amantes escolhem Vinícius de Moraes. E os traídos, Vinícius. Os sofridos, Vinícius. Os esquecidos, Vinícius e por aí vai. Pelo menos esses últimos têm bom gosto.
Ou seja, o MSN é o nosso moderno para-choques de caminhão. Com uma (triste) ressalva. Os para-choques também apresentam frases divertidas, bem-humoradas, irônicas e tudo mais. Já o MSN é uma babaquice melosa, babada e cuja criatividade perdeu-se ao longo da estrada.
Ah, e, por favor, deixem Deus fora disso… ele não tem MSN e não vai conseguir ver seus recados a Ele. Seja recado direto ou metafórico.
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por Beto Pacheco
Gente, acho bacana termos um mundo melhor, aprendermos, buscarmos novas alternativas, lutarmos por condições melhores de vida, de saúde, de sociedade, educação, diminuirmos as diferenças e tal. Mas todas as lutas, invariavelmente, trazem benefícios, discordâncias e um bando de gente chata a tiracolo. Assim, nada mau em ser feminista, mas, convenhamos, as feministas ferrenhas são um porre. São capazes de fazer xixi em pé só pra equilibrar a briga com os homens. “A última gota é sempre na calcinha”, era só o que me faltava.
Os ecolutadores também são chatos. Tudo é verde, tudo é vida, tudo aquece o planeta, todo progresso é maligno, todos os bichinhos são bonzinhos e o Homem mau. Eu sei que estamos ferrados e que sem a briga deles estaríamos piores, mas isso não muda o fato de eles serem chatos, é só isso que estou querendo dizer. É como naquele filme O Advogado do Diabo: o réu era um crápula, bandido, salafrário e estava sendo acusado de ter matado a própria família. O advogado de defesa (Keanu Reeves) o achincalhou no tribunal perante os jurados e o cara não entendeu nada. Depois ele explicou: “Eu quero que eles te odeiem como pessoa, mas que percebam que o mundo está cheio de gente assim, mas que, nem por isso, essas pessoas são assassinas.” E ele foi absolvido. No fim das contas acho que o cara era culpado, hehe, mas isso não vem ao caso.
Veja bem, voltando ao assunto, eu sou um grande defensor dos direitos das mulheres, do meio ambiente, dos homossexuais, dos negros (pior que nem sei se posso usar essa palavra, se não corro o risco de ser acusado de segregário – mesmo sem querer), das crianças, dos favelados (outra palavrinha que dá dor de cabeça), ou seja lá de quem quer que esteja passando por discriminação, dificuldade, humilhação, etc. Mas alguns exageros me apertam o calo.
Lembro de uma vez que queriam banir as palavras consideradas racistas do português-brasileiro. Usar “neguinha”, por exemplo, não poderia mais. Caramba!, e o que faríamos com as obras de Machado de Assis, com as canções de Gilberto Gil, Dorival e Ary Barroso, com a poesia de Vinícius de Morais, com o teatro de Nélson Rodrigues… Jogaríamos tudo fora? Ou faríamos um concurso público para contratar revisores e intérpretes para substituírem tudo aquilo que, mesmo sendo de nossa cultura – africana até o osso –, fosse considerado racista? O racismo está muito mais no tom do que nas letras.
Resumindo, tudo tem de ser politicamente correto (areado com palha de aço) nos dias de hoje – e nem sempre é por princípios. Explico. Na maioria das vezes, é por questão meramente financeira. Não que esteja errado, já que somos todos – inclusive chineses – capitalistas. Vivemos na onda das responsabilidades. Responsabilidade fiscal, responsabilidade social, responsabilidade ambiental, responsabilidade sustentável e por aí vai. E a empresa tem de adquirir tais responsabilidades, caso contrário não ganha verbas governamentais, não tem descontos nos impostos, perde contratos e mais uma penca de abacaxis (o coletivo tá errado, eu sei, mas isso não vem ao caso) que nem se contam.
Daí vem o Dr. Dráuzio Varela (aquele careca, do Fantástico) e começa a dar um monte de lições. Gosto dele. O problema é que o povo só faz o que ele prega se o Show da Vida mostra e, pior!, enquanto mostra. É só sair do ar a campanh… perdão, a série de reportagens que volta tudo à estaca zero. Exemplo: campanha de doação de órgãos. Foi a série ir ao ar que, em um mês, triplicou o número de doadores na Santa Casa de Curitiba (dados repassados em off para este repórter). Bastou a série sair do ar que, pimba!, os números decaíram novamente. Se tá na moda da “Grobo” o povo embarca; se não…
E para finalizar, a pior de todas: estão descaracterizando personagens históricas para criar uma mentalidade (uma responsabilidade) saudável. Eu sei que precisamos cuidar da saúde. Sou, inclusive, um ferrenho (chatíssimo, diga-se de passagem) combatente do tabagismo e estou tentando me controlar com relação à comida também. Ainda mais agora que tenho um pai operado com 3 pontes de safena em casa. Contudo (e que fique de fora desse debate o chato de galocha, o indivíduo real e que entre na discussão o escritor, que se vale da fantasia), eu vi, hoje, uma cena que me desanimou– um Rei Momo magro. Magro, não, magérrimo. Tudo bem que devemos dar o exemplo e que uma figura pública é vitrine para as demais. Agora, Rei Momo magro não dá, gente. É como Carnaval sem Luma de Oliveira.
Portanto, comei-vos e bebei-vos, foliões. Deixemos, pelo menos na semaninha do Carnaval, as responsabilidades de lado. Afinal, é para isso que ele serve… já que na quarta-feira de cinzas todos estaremos de volta ao dia-a-dia, com seus chatos – tenham eles razão ou não – e seus moinhos de vento.
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A moça
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dezembro 15th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Dia desses, eu vinha para o trabalho de ônibus (pois, sim, ando de ônibus; afinal, juntando o jornalista, o músico e o pseudo-escridor, mal e parcamente sobram uns trocados pra comprar a comida do cachorro – inclusive, já o estou treinando par tornar-se vegetariano). Bom, voltando, vinha de ônibus quando notei no fundo da condução uma moça muito bonita se maquiando. Era por volta de 8h30 da manhã e ela devia ter se atrasado, já que é sabido que algumas mulheres são capazes de perder o casamento, mas não saem de casa sem se maquiar.
E, confesso, ela era muito boa em se maquiar. Não sei dizer o nome dos badulaques, espelhinhos, pozinhos e pinceizinhos que faziam parte de seu arsenal, mas ela os manejava com muito apuro. Vinha lombada, e ela segurava a mão firme. Buracos na pista? Não a intimidavam. “Olha o semáforo, freia!” Sacolejos, gente a observando, nada a tirava do prumo. Nem o constrangedor homem que a observava incessantemente a fazia se desviar do próprio reflexo.
Além do talento nato em se maquiar num ônibus em movimento, a beleza dela realmente foi o que chamou a minha atenção. Cabelos lisos e castanhos, a cor dos olhos combinando com os fios, narizinho arrebitado, jeito de menina… um estrago. Talvez ela não chamasse a atenção de todos, mas cativou a mim. Normalmente é assim – a velha história da panela e sua tampa. Não que ela fosse a minha, longe disso (pois para o encaixe ser perfeito demanda tempo, convivência e outras afinidades a serem provadas e aprovadas), mas naquele momento, naqueles minutos dentro do ônibus, valia fantasiar.
São histórias assim que inspiram propagandas de perfume. A moça, toda cheirosa, passa na calçada e vai derrubando geral a rapaziada. A câmera a segue em passos lentos. Bate uma brisa que faz voar seus longos cabelos (e o pensamento) e pronto… milhões de frascos da fragrância vendidos em todo mundo. Quanto à moça da propaganda? Bom, ela fica ali mesmo, na retina. Às vezes é melhor assim, pois não há realidade que suplante uma bela poesia.
Vale contar que ela desceu no mesmo ponto que eu. Andava tão firme e em linha reta que me fez pensar que o domínio e habilidade no ato de se maquiar se estendiam a suas outras alegorias. Atravessou a rua e seguiu calçada adiante. Eu fiquei do lado de cá, paralelamente a acompanhando. Para minha surpresa, ela estava tão segura da sua condição (fosse da maquiagem, fosse da própria natureza) que sequer usava as vitrines como espelho improvisado. Eu, ao contrário, tropiquei algumas vezes por não prestar atenção aonde ia.
De repente, uma esquina. Ela virou e eu parei indeciso. Viro junto ou sigo meu rumo? Segui. Por quê? Porque histórias assim precisam acabar como propagandas de perfume, que têm um tempo próprio de vida. Um tempo curto, viçoso, mas que se for alongado pode murchar. Propagandas de perfume que precisam explorar a imagem para fazer-nos idealizar o aroma da moça. Aroma este que – ironicamente – virá quase sempre separado à própria moça que lhe faz imaginar.
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dezembro 14th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Admito: caí na moda como todo mundo… agora jogo pôquer uma vez por semana com um grupo de amigos. E digo moda, e não vício, porque eu não fico viciado em nada – deve ser uma mutação, sei lá. Por exemplo: posso beber todo dia, todo dia mesmo, que não fico viciado. Se numa ou outra semana bebo mais que na outra é pura e simplesmente por casuísmo e vontade própria. E isso acontece também com o pôquer. Se jogarmos mais de uma vez na mesma semana é por que achamos divertido. Divertido e ponto.
Foi o caso de sexta passada, quando jogamos uma partidinha que prometia acabar cedo e ficamos até as 6 horas da matina na peleja. Bom, não preciso nem dizer que uma das rodadas quem ganhou foi o degas aqui (tá bom, sei que degas é antigo, algo que não condiz com a minha mocidade, então prometo me redimir daqui pra frente e ser mais moderninho… só não me peçam pra ir ao show do Fresno, pois ser moderno não tem nada a ver com autoflagelação).
O fato é que o pôquer é um jogo pensado única e exclusivamente na reunião dos amigos. O baralho, as regras, o dim-dim, são simples firulas. O que vale mesmo é a confraternização. Se bem que há casos extraordinários. Algumas vezes a pessoa se preocupa por demais com o desempenho. Acredito que seja uma forma de querer pôr a virilidade à prova, algo assim. Portanto, para alguns, jogar bem é ser, digamos, mais fodão (desculpa pelo palavrão, mãe) que os demais. Partindo desse pressuposto, ser taxado como mau jogador ou cometer erros crassos torna-se inadmissível – algo capaz de deixar o gajo tremendamente desacorçoado.
Um bom exemplo foi o Alexandre que, dia desses, ganhou por pura sorte (obviamente, neste dia eu não estava presente) ou por uma tremenda conspiração – à base de deboche, é bom que se diga – celestial. É sério, não há como ele ganhar se não for com ajuda paranormal. E, caro leitor, nem queira ficar com pena, pensando que estou exagerando. Quer ver só? Ele teve a capacidade de apresentar na mesa – apostando 75% do seu patrimônio de fichas – uma sequência que ia de dama a três. Gente (o Beto disse “gente”!), sequência de dama a três não existe nem em baralho de mágico.
Pior. Depois dessa, às mínguas, ele não se deu por satisfeito. Armou aquela cara de quem-não-tem-nada-mas-tá-blefando, encheu o peito, largou as cartas na mesa e soltou o grito, à la Silvio Santos, da garganta: “E a caravana das trincas vem da onde?” Crente de que tinha uma trinca não mão, daquelas que não perdem para ninguém. Pois a trinca era formada por um oito, um nove e um dez de paus… Pois é. Ninguém se conteve, o que gerou uma gargalhada geral da mesa. O Ale ameaçou ir embora, mas conseguimos contê-lo mostrando as fichas (parcas) que ele tinha e reforçando que ainda havia a possibilidade da volta por cima – é, eu sei, fomos um tanto quanto cruéis.
Mas, tranquilo, hoje tem mais e o Alexandre estará presente. O que é garantia de risadas, surpresas e de que a probabilidade de vitória aumenta para os demais… pois ele não é café-com-leite, mas certamente é carta fora do baralho.
Dica: leia a crônica “Pôquer Interminável”, de Luís Fernando Veríssimo.
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novembro 24th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Quando eu fico muito tempo sem escrever é porque não tenho tempo ou, pior, muito pior, não tenho idéia do que raios colocar no papel (eu sei que é tela de computador, mas vamos tentar manter o mínimo de saudosismo… o mínimo!). O problema é que esta ausência de matéria-prima – ou de ponteiros mais lentos e preguiçosos – vai me causando uma aflição danada. “Será que nunca mais vou conseguir? Será que a inspiração se foi para sempre (como se você tivesse tido alguma que preste algum dia, Beto)?”, fico me flagelando mentalmente.
É tamanho o devaneio que me apego a técnicas ou assuntos repetitivos (e qual não é?) para tentar, quiçá!, emplacar umas frasezinhas meia-boca. Uma das técnicas é a de recorrer a situações que vivi na infância. Minha amiga Cláudia adora essa, mas nem sempre me lembro ou, muitas vezes, não dou conta de relatar de forma agradável dais recordações. Porque, se nem eu aguentar ler o que eu mesmo escrevo, imagina o resto. O segundo passo é prestar atenção no dia-a-dia. Sempre tem um ataque de baratas suicidas, ou uma briga de bêbado no bar da esquina, ou um macarrão que se deixa queimar (confesso, consegui tal proeza certa vez) ou uma viagem mal-acabada. Vai saber.
Porém, tem horas que nem isso dá certo. Partimos, então, para a crítica cultural, musical, literária, teatral, cinematográfica, o escambau… Mas em fase de baixa-estima intelectual, o trem não sai de jeito nenhum – seja em Minas ou no notebook que se põe a rir da sua cara. Nas últimas, quando o túnel se finda e a luz se esvai, vamos para o futebol. E por que o futebol é a última instância? Porque escrever BEM sobre futebol é uma tarefa árdua. Qualquer Zé-mané se acha capaz, mas descrever um gol pelas teclas, em tempos de tevê digital e iPod, é pedir para ser tachado de mentecapto.
Agora, quando se consegue escrever bem sobre assunto tão chato atingi-se o que se pode chamar de alta literatura futebolística. E neste degrau temos nomes de grande estirpe: Nélson Rodrigues, Mario Filho e Armando Nogueira são os maiores. Contudo, há aqueles temporários, que só o fazem em raras ocasiões – com em época de Copa – ou para defender suas agremiações. Caso de Luís Fernando Veríssimo, Ruy Castro e Mário Prata. Pensando nesses mestres, pensei em escrever uma crônica falando do meu time, cuja história é curta, mas com várias nuances.
Foi aí que me dei conta: não sei nada (pelo menos não de anos para cá) sobre o meu time. Não sei quem é o goleiro, nem imagino os nomes dos laterais, muito menos as alcunhas dos zagueiros (talvez um deles tenha o sobre nome Alcunha e nem estou sabendo). Nada sobre os meias e nada sobre os atacantes. Técnico, então, nem a primeira letra do nome me vem. “Google, Beto… GOOGLE!” Pois é, até pensei em apelar, mas, peralá!, eu tinha de saber isso. Não adianta ir lá e Ctrl C + Ctrl V nos nomes. Isso não resolve o fato de eu não ir a estádios mais e de me preocupar, atualmente, menos com a fratura de tornozelo do guapo Paranito do que com a visita do Ahmadinejad ao Brasil.
Ou seja, não sou mais aquele torcedor e isso afeta sensivelmente o que poderia vir a escrever. Sem emoção fica difícil e, definitivamente, não me esgoelo mais num gol como antigamente (bom, isso era na época em que eu acreditava em Papai Noel e que o Eurico Miranda, o Farah e o Onaireves Moura eram, só, dirigentes com impostos em dia). Portanto, descobri que não tenho cacife – nem time – para bancar uma crônica desse tipo. Que elas fiquem a cargo daqueles que sabiam e sabem o que fazem. Terei de continuar resignado nessa melancólica falta de assunto e inspiração… ai-ai!
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outubro 13th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Vamos falar a verdade: camisinha é um saco (quase que literalmente). Tem coisa mais incômoda e inconveniente do que um pedaço de borracha a envolver o malandro na hora em que ele mais quer se divertir? Não. Definitivamente, não. Você lá, naquele calorão, euforia, rasga roupa daqui, arranca meia dali, sobe, desce, desce, sobe e… freia tudo! “Querido, coloca a camisinha”. Que tristeza. Eu sei, eu sei que é importante, que é uma questão de saúde, de prevenção, de responsabilidade, de contracepção, mas, convenhamos, é muito primitivo.
A camisinha é um treco danado de antigo e decorre, segundo estudiosos, de civilizações anteriores a Cristo (cuja igreja oficial – a qual, dizem, ele pertence – não aprova o preservativo). Puxa vida!, será que não conseguiremos criar – e já faz dois mil anos que vivemos esse martírio – algo mais moderninho do que essa capinha emborrachada? Sei lá, uma vacina, uma pílula, um spray, qualquer coisa. Ou, já que não fomos capazes de avançar tecnologicamente no assunto, que, pelo menos, tentemos facilitar a vida na hora do rala-e-rola.
Eu lembrei, por exemplo, de um mecanismo que poderia inspirar nossos cientistas a bolar uma saída mais rápida e prática na prévia do sexo – aquela maldita e infinita hora em que se coloca a camisinha. Sabe aqueles carros modernos que, ao você entrar e fechar a porta, automaticamente posicionam o cinto de segurança no lugar? Então, imagine uma calça ou bermuda que tenha um badulaque que fique por dentro com a camisinha previamente posicionada. Basta você tirar a calça e, vlupt!, ela automaticamente engata o preservativo na parte que lhe cabe.
Seria fantástico! Você prestes a dar aquela rapidinha – clássica e emocionante – no carro, no elevador, no corredor, atrás de uma moita, ou seja lá onde seu fetiche caiba, e, ao tirar as calças, vlupt!, a camisinha está lá antes mesmo que você possa dizer Pindamonhangaba (sei lá por que escolhi Pindamonhangaba, mas agora já foi). Não resolveria de todo o problema, é fato, que não está só no colocar, mas, também, no horrível ralar de borracha, nhec-nhec-nhec, mas, vá lá, teríamos meio-caminho andado.
Contudo, dois empecilhos precisariam ser resolvidos para que tal engenhoca dê certo. Primeiro, o companheiro dos países-baixos teria que estar em posição de sentido para que o preservativo o vista sem problemas. O alerta viria no manual de instruções, que, obviamente, deveria ser lido previamente. “Peraí, querida, antes de tirar as calças eu preciso ler o manual.” Convenhamos, uma atitude dessas inutilizaria os benefícios da maquininha.
O segundo é criar um chip que fizesse a leitura da situação. Como assim? Explico. Vai que o rapaz, cujas calças carregam o P.A.C.T. (Preservativus Automaticus Colocators Tabajara) está, simplesmente, indo ao banheiro. Chega lá, esquece da ferramenta, abre a braguilha e, vlupt!, és encapado antes mesmo de colocar o líquido pra fora. Deus o livre! Ainda mais se o coitado estiver apertado. É…, tomara que a ciência evolua, caso contrário o negócio é continuarmos com o atual método, tão primitivo quanto essa deturpada mente que vos escreve.
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setembro 24th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Alguém (que não lembro quem foi) disse certa vez (que não lembro quando foi) que você não escolhe ir à guerra e, sim, a guerra escolhe vir até você. Concordo, ainda mais depois da tarde de hoje. Eu estava tranquilão trabalhando no meu computador, coisa que faço todos os dias, mesmo depois de trabalhar a noite toda (trabalho em vários turnos – diurnos e noturnos), tocando e escrevendo, quando resolvi ir à cozinha pegar algo para comer. Pois foi nesse momento que vi as tropas inimigas marchando rumo ao alvo: um bolo de chocolate que estava sobre a mesa.
Formigas, rapaziada, muitas, mas muitas formigas. Seguiam alinhadas, como tropas treinadas, porta adentro. Num primeiro momento, fiquei sem reação. Pensei em ligar para o 190 a princípio, mas daí pensei: Beto, você é um homem ou um rato? (creio que isso tenha sido dito outrora por alguém também – cujo nome não me recordo. Acho que estou com problema de memória). Levei alguns segundos até me recompor e planejar minha ação.
Primeiro, calculei a distância entre a porta e a mesa para ter uma noção da quantidade de inimigos que enfrentava – é sempre importante conhecer o inimigo e, principalmente, quantos são. Após terminar a contagem, percebi que teria dificuldade em vencê-las. A questão era: que armas usar? Comecei com uma vassoura (sei que parece cruel, mas você pensa assim porque nunca enfrentou inimigos tão decididos) e varri sem dó as formiguinhas para fora de casa. Depois, transferi o bolo de posição e passei um pano sobre a mesa para dar o trato final.
Não sofri nenhuma retaliação e julguei ter vencido a batalha. Como já tinha, além de duelar com as formigas, trabalhado tudo o que devia (uma pegada na madrugada, de violão em punho, e outra à tarde, escrevendo, atualizando site e “marketiando”) decidi dar uma volta com o meu cachorro. Minutos depois, voltei para casa e deparei-me com o horror… elas voltaram. A mesma fila, o mesmo bolo, a mesma cara-de-pau de invadir a casa de gente de família para roubar descaradamente a despensa alheia. Pois fale mal do meu cabelo (falta de), da minha pança de cerveja, da minha preguiça crônica, mas não mexa com a minha comida. Agora era guerra!
Vassoura de novo; só que, dessa vez, varri as danadas até a rua, sem dar chance para que encontrassem o caminho de volta. Mordendo os lábios de raiva, peguei álcool e borrifei no chão todo – para inibir o olfato das lazarentas. Joguei o bolo no lixo e lavei toda a louça (atitude louvável e rara, é bom que se diga). Contudo, eu sabia que não bastava. Precisava atacá-las em seu quartel general… e foi o que fiz. Segui o rastro até descobrir de onde elas partiam: um buraquinho que ficava sob uma lajota trincada, lá na garagem.
Lembrando os meus tempos de piá (ou guri, garoto, menino, moleque, para os não curitibanos), decidi usar armas químicas (que a ONU me perdoe…) e taquei detergente na porta do QG inimigo (fui bacana, diz aí, pelo menos não usei uma lupa para tostá-las). As formigas não apareceram mais, o que me faz pensar que venci a guerra. Só tenho medo de ser arrastado da minha cama, por vingança, durante a noite. Mas vou preparar armadilhas e alarmes ao redor para evitar possíveis problemas… Ah, e amanhã vou comprar um novo tubo de detergente.
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agosto 24th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Pessoal, a área total do Planeta Terra, segundo fontes acadêmicas, é de 510,3 milhões km². Para darmos uma noção melhor: 510.300.000 km². É espaço pacas, convenhamos. A América do Sul, por sua vez, tem cerca de 18 milhões km². Um pouco menos, mas ainda é bem abrangente e com muitos lotes em aberto. Só o Brasil, que é o maior país da América do Sul, veja vocês, tem 8.514.876 km² – o que inclui áreas ocupadas por terra e água; e espaços abertos por cima disso tudo, muito espaço aberto… espaço aberto pra burro. O Paraná, que é um estado do Brasil há algum tempo já, é bom que se diga, tem 199.315 km². É bem menos que a Terra, concordo, ou que a América do Sul, ou até que o Brasil, mas tente medir com uma trena pra ver se você consegue. Ou seja, temos bastante espaço no Paraná também, caso você prefira ficar por aqui ao invés de conhecer São Paulo ou Santa Catarina (cujas áreas poderiam também ser colocadas se eu não estivesse com preguiça agora). A Capital do Paraná é Curitiba. Cidadezinha bem bacana, reconheço. Ela possui uma área de 15.477 km², que, perto dos 510,3 milhões km² da Terra, a faz parecer uma cabeça de alfinete no mapa. Porém, mesmo assim, ela é grandinha – tente atravessá-la na hora do rush pra ver se a danada não é parruda o suficiente. Eu moro no Bairro Guabirotuba, em Curitiba, cuja área não achei no Google (sempre ele), e minha casa deve ter uns 80 m². Ou seja, muito, mas muito, menor que toda a área presente no mundo. Dito isso, eu pergunto: Por que, raios!, meu pai e meu irmão fumam justo dentro de casa quando têm tanto espaço lá fora?
P. S.: isso vale também para os bares que frequento e as pessoas – conhecidas e desconhecidas – que gostam de fumar em áreas medidas em m² ao invés de km² (mesmo que os não-fumantes estejam a um metro delas).
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Vingança
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agosto 10th, 2009Contospor Beto Pacheco
É meu último dia. Trabalhei no mesmo Banco a vida inteira e a partir de segunda-feira serei mais um aposentado.
Chamo-me Almeida. Cheguei à gerente de conta, um belo cargo… Tem gente que nem consegue. Sento no mesmo lugar há anos e o barulho do painel, que informa o número da próxima senha a ser atendida, fica zumbindo na minha cabeça o dia todo. Estou a caminho do trabalho. Já decorei o número de passos do trajeto. Chego e vejo a porta giratória, o segurança, a fila… Nada muda. São 9 horas e 55 minutos. Sigo para a minha mesa, ligo o computador e aguardo o tempo passar.
Começa o expediente. Em poucos segundos as poltronas para a espera do atendimento personalizado estarão lotadas. Continuo mexendo no sistema. Uma senhora rechonchuda retira a primeira senha. Está tensa. Chegou cedo para não enfrentar fila. Olho para ela e penso: “Aperto o botão do painel ou espero mais um pouco?”.
Um desejo de vingança percorre minhas entranhas. Anos e anos acendendo a luz do painel. Uma, duas, dez, cem vezes ao dia… Ela vai esperar. Espio de canto-de-olho. Ela começa a suar. Os músculos da face contraídos, impacientes. Não darei chance. Olho novamente para a tela do computador e finjo estar ocupado. Decido me levantar.
Normalmente trabalho com o Geraldo no atendimento, mas ele está de folga. Hoje sou apenas eu. Já há seis pessoas esperando. Entro em uma sala, atrás da minha mesa, e observo a gorda pela porta entreaberta. Ela olha para o relógio incessantemente e isso me deixa excitado. Volto à minha mesa. A mulher começa a falar com os outros clientes: “Isso é um absurdo! Fui a primeira a chegar e ainda não fui atendida…” Não estou nem aí. Todos me olham aflitos na esperança de que eu comece os trabalhos.
Tenho uma idéia: vou aos fundos da agência, onde fica o controle do ar condicionado, e o desligo. A sala começa a esquentar. A mulher levanta-se e vem até minha mesa: “O senhor não vai me chamar, não?” Respondo: “Calma, senhora, tenho que terminar um serviço solicitado por meu gerente, já lhe atendo.” Ela volta em bicas para o seu lugar. O homem sentado ao seu lado abana-se com um panfleto de serviços do banco. Um office-boy puxa a gola da camisa e assopra. Cada vez mais quente. Coloco meus óculos e observo a cena. Estou me divertindo.
Quero torturá-la. Paro ao lado do botão que aciona o painel eletrônico e olho em volta. A gorda suarenta arruma-se na poltrona. Pende o corpo para frente, no limite da expectativa. Passo a mão pela testa e enxugo na camisa. O Banco parece um forno. Uma estagiária vem perguntar por que o ar está desligado e digo que já chamamos a manutenção. Posiciono meu dedo logo acima do botão. A gorda me olha; está descabelada e gosmenta. Começo a descer meu dedo, lentamente, rumo ao objetivo. Quando estou quase lá, toca o telefone e a mulher quase cai de boca no chão. Sorrio.
Já existem oito pessoas na espera. Acho que logo alguém vai desfalecer. A mulher com a senha “um” – a gorda – está quase louca. Começa a gritar, diz que quer falar com o gerente e tal. Não ligo. Estou indiferente. A confusão torna-se geral. Quando me dou conta, o caos explode. O Office-boy já está me segurando pelo colarinho e um senhor grisalho me xinga. A estagiária vai ao fundo do prédio e descobre que o ar fora desligado. Todos me empurram e gritam. Resolvo sair dali.
Trabalho no segundo andar. Pego minha maleta e parto na direção da escada. Todos estão ao meu redor. O gerente esta à minha esquerda, gritando. Todos gritam comigo, mas não ouço nada. Estou em outro plano. Chego ao topo da escada e alguém me empurra. Rolo dois lances de escadas. É meu último dia.
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Tags: Cotidiano, Violência -

por Beto Pacheco
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Correria, bola, sorvete
Cumprimento, abraço, beijo, suor, amor…
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