Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-
fevereiro 4th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Estava folheando uma revista quando me deparei com o anúncio de uma festa, dessas populares que cidades do interior vira-e-mexe promovem. Era uma festa da uva de não sei onde (Colombo, eu acho). Tem pencas dessas festas por aí. Festa do milho, festa da batata, festa da acelga, festa do pepino, festa da laranja, festa do pêssego e do ovo… um monte.
Todas elas têm mega-shows. Só que são mega-shows sertanejos. Até aí, tudo bem, cada um com seu cada um. Agora, por que é que cargas d’água eles têm de ser todos iguaiszinhos? Sim, pois há um protocolo sertanejístico. Explico. É obrigatório, por exemplo, ser uma dupla sertaneja. Não vale trio, não vale single, não pode quarteto, quiçá banda com nome. É dupla e ponto. E a dupla tem de ser toda planejadinha.
O que faz a primeira-voz, que é quem canta pra valer, é o cara de cabelinho arrepiadinho e roupas moderninhas. O outro toca viola e usa chapéu. É sempre assim: o que usa chapéu tem de tocar viola e ser a segunda-voz. Por quê? Sabe Deus! Tenho uma teoria: para evitar briga. Entendam, não dá pro cara ser a primeira-voz, tocar violão e ainda usar chapéu. Desse jeito não sobra nada pro outro coitadinho. E você bem sabe que inveja é uma desgraça. Ainda mais se for dupla de irmãos. O que acontece sempre.
E todas as músicas têm de ter – se não tudo, pelo menos algumas partes – morena, loira, cerveja, sertão, laço, cavalo, rodeio, e coração partido. E agora tem uma nova: é obrigatório um dos dois ter nome composto. Zé Fulano e Beltraninho, ou João de Barro e Sabiá, ou então Rio Tocantins e Paraná.
O pior é que o povo engole, gente. Linha de produção. Caramba, se tem uma coisa que não precisamos, necessariamente, gastar para consumir é a música. Ela está no rádio, pode ser baixada no computador, ouvida nos programas de tevê, etc. Além do que, há outra característica: os preços são parelhos. CD é CD e pronto. Não é por que uma música é mais bem produzida, tem mais efeitos, instrumentos que o CD vai custar mais. Portanto, dá para escolher à vontade. Não é como carro que, se você não tem dinheiro, não tem escolha e compra um Uno (tá bom, Uno peguei pesado).
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por Beto Pacheco
Além da minha própria (obviamente) apresentação de TCC, assisti, na época em que estava me formando, a outra, de um grupo de amigas. Elas fizeram dois produtos: um documentário e um livro-reportagem – ambos muito legais – sobre o uso de espaços alternativos para a expressão de ideias, pensamentos, críticas, etc. Coisas como protestar pichando muros, mandar recadinhos em porta de banheiros públicos, colar cartazes criticando a sociedade em postes de iluminação pública, entre outras. Um ótimo trabalho e extremamente criativo.
Há tempos, espaços e meios alternativos são usados para que possamos nos comunicar. Bilhetes de socorro deixados em garrafas, para-choques de caminhões, post-it na geladeira e por aí vai. Contudo, estamos na Era da Informação. E da informação digital. Foi-se a Esfera Privada. Não existe mais o romantismo e a discrição coisa. Todo mundo sabe tudo, vê tudo (querendo ou não). Basta googlar. Basta entrar no Orkut, Twitter, Facebook ou MySpace. Acho espaços bacanas, fundamentais para a divulgação de trabalhos, envio de convites, encontro de velhos amigos, espionagem da vida alheia e compartilhamento de toda sorte de traquitanas.
Contudo, há os exageros. E eles aparecem quando usamos isso para mandar “recados”… daqueles com aspas. E aí chegamos aonde eu queria: às frases do MSN. Gente, é praticamente um diário (aberto ao público). Todo mundo fica sabendo se a pessoa está feliz; se está triste; se está namorando; quando começou; qual o grau de paixonite; se o amor está declinando; se acabou; se a pessoa está com raiva por conta disso; se superou; se achou outro; se quer morrer; pular da ponte; se vai casar; se ficou noivo(a); se, quando, onde e como rolou o pedido, etc., etc., etc.
A partir daí, temos uma segunda fase. A primeira foi a da incontrolável vontade de expor ao mundo o que rege o momento em que cada um vive. A segunda é a forma. Há aqueles que são diretos em suas frases, há os literários, os filosóficos, os metafóricos, os que escolhem frases musicais e os que colocam aquelas caretinhas do Smile.
Os que são diretos já declaram, sem pudor, que encontraram o amor da vida. A tampa da panela, a alma gêmea, a tão procurada encruzilhada de ambos os destinos. Ai, Ai! Duas semanas antes estavam solitários, crentes de que ninguém no mundo presta e que passariam a eternidade sem dar chance a mais ninguém. Duas semanas depois voam pombas brancas, rosas vermelhas e anéis dourados camuflados nas frases do MSN. Dá vontade de bocejar.
Os literários escolhem uma frase chique, dita por alguém de renome (normalmente um nego que nunca leram e cuja frase copiaram do MSN de outra pessoa que também não leu o dito) e colam lá com ar de que só eles tiveram o afã de achar sapiente comentário. Tem um maldito poema – das borboletas, ou da busca das borboletas, ou do jardim das borboletas, sei lá eu – do Mário Quintana que é campeão de audiência neste quesito.
Os filosóficos escrevem uma parada – bonita, vá lá – que poucos entendem, cuja curiosidade instiga pela construção, mas que não chega a nenhuma conclusão final. O que está escrito ali diz respeito apenas à pessoa, ao contexto dela ou à mente convexa da mesma. Daí você fica pensando: já que só ela entende e que só a ela diz respeito, por que, raios!, colocou ali?
Os metafóricos usam de figuras de linguagem para expor o seu estado de espírito. “O sol vai raiar na alma daqueles que passeavam pelo jardim no dia que as flores desabrocharam…” e blá, blá, blá. Estes normalmente têm, naquele momento, a certeza de terem escolhido uma frase que traduz uma verdade absoluta. Pelo menos até o dia seguinte, quando alguma coisa acontecer, mudar toda a verdade até então estabelecida e ele ter de mudar para mostrar a todos os demais – tanto os que têm, quanto os que não têm nada a ver com a peteca – o que acontece em sua vida.
Os das frases musicais têm seus clássicos pré-estabelecidos. Funciona assim: Para comentários do tempo, Jorge Benjor (Santa Clara clareou, Chove Chuva, Lá Fora está chovendo…). Os apaixonados – babões – letras de música sertaneja (não sei dar exemplo porque não conheço nenhuma das novas duplas do “sertanejo-universitário). Já os amantes escolhem Vinícius de Moraes. E os traídos, Vinícius. Os sofridos, Vinícius. Os esquecidos, Vinícius e por aí vai. Pelo menos esses últimos têm bom gosto.
Ou seja, o MSN é o nosso moderno para-choques de caminhão. Com uma (triste) ressalva. Os para-choques também apresentam frases divertidas, bem-humoradas, irônicas e tudo mais. Já o MSN é uma babaquice melosa, babada e cuja criatividade perdeu-se ao longo da estrada.
Ah, e, por favor, deixem Deus fora disso… ele não tem MSN e não vai conseguir ver seus recados a Ele. Seja recado direto ou metafórico.
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por Beto Pacheco
Gente, acho bacana termos um mundo melhor, aprendermos, buscarmos novas alternativas, lutarmos por condições melhores de vida, de saúde, de sociedade, educação, diminuirmos as diferenças e tal. Mas todas as lutas, invariavelmente, trazem benefícios, discordâncias e um bando de gente chata a tiracolo. Assim, nada mau em ser feminista, mas, convenhamos, as feministas ferrenhas são um porre. São capazes de fazer xixi em pé só pra equilibrar a briga com os homens. “A última gota é sempre na calcinha”, era só o que me faltava.
Os ecolutadores também são chatos. Tudo é verde, tudo é vida, tudo aquece o planeta, todo progresso é maligno, todos os bichinhos são bonzinhos e o Homem mau. Eu sei que estamos ferrados e que sem a briga deles estaríamos piores, mas isso não muda o fato de eles serem chatos, é só isso que estou querendo dizer. É como naquele filme O Advogado do Diabo: o réu era um crápula, bandido, salafrário e estava sendo acusado de ter matado a própria família. O advogado de defesa (Keanu Reeves) o achincalhou no tribunal perante os jurados e o cara não entendeu nada. Depois ele explicou: “Eu quero que eles te odeiem como pessoa, mas que percebam que o mundo está cheio de gente assim, mas que, nem por isso, essas pessoas são assassinas.” E ele foi absolvido. No fim das contas acho que o cara era culpado, hehe, mas isso não vem ao caso.
Veja bem, voltando ao assunto, eu sou um grande defensor dos direitos das mulheres, do meio ambiente, dos homossexuais, dos negros (pior que nem sei se posso usar essa palavra, se não corro o risco de ser acusado de segregário – mesmo sem querer), das crianças, dos favelados (outra palavrinha que dá dor de cabeça), ou seja lá de quem quer que esteja passando por discriminação, dificuldade, humilhação, etc. Mas alguns exageros me apertam o calo.
Lembro de uma vez que queriam banir as palavras consideradas racistas do português-brasileiro. Usar “neguinha”, por exemplo, não poderia mais. Caramba!, e o que faríamos com as obras de Machado de Assis, com as canções de Gilberto Gil, Dorival e Ary Barroso, com a poesia de Vinícius de Morais, com o teatro de Nélson Rodrigues… Jogaríamos tudo fora? Ou faríamos um concurso público para contratar revisores e intérpretes para substituírem tudo aquilo que, mesmo sendo de nossa cultura – africana até o osso –, fosse considerado racista? O racismo está muito mais no tom do que nas letras.
Resumindo, tudo tem de ser politicamente correto (areado com palha de aço) nos dias de hoje – e nem sempre é por princípios. Explico. Na maioria das vezes, é por questão meramente financeira. Não que esteja errado, já que somos todos – inclusive chineses – capitalistas. Vivemos na onda das responsabilidades. Responsabilidade fiscal, responsabilidade social, responsabilidade ambiental, responsabilidade sustentável e por aí vai. E a empresa tem de adquirir tais responsabilidades, caso contrário não ganha verbas governamentais, não tem descontos nos impostos, perde contratos e mais uma penca de abacaxis (o coletivo tá errado, eu sei, mas isso não vem ao caso) que nem se contam.
Daí vem o Dr. Dráuzio Varela (aquele careca, do Fantástico) e começa a dar um monte de lições. Gosto dele. O problema é que o povo só faz o que ele prega se o Show da Vida mostra e, pior!, enquanto mostra. É só sair do ar a campanh… perdão, a série de reportagens que volta tudo à estaca zero. Exemplo: campanha de doação de órgãos. Foi a série ir ao ar que, em um mês, triplicou o número de doadores na Santa Casa de Curitiba (dados repassados em off para este repórter). Bastou a série sair do ar que, pimba!, os números decaíram novamente. Se tá na moda da “Grobo” o povo embarca; se não…
E para finalizar, a pior de todas: estão descaracterizando personagens históricas para criar uma mentalidade (uma responsabilidade) saudável. Eu sei que precisamos cuidar da saúde. Sou, inclusive, um ferrenho (chatíssimo, diga-se de passagem) combatente do tabagismo e estou tentando me controlar com relação à comida também. Ainda mais agora que tenho um pai operado com 3 pontes de safena em casa. Contudo (e que fique de fora desse debate o chato de galocha, o indivíduo real e que entre na discussão o escritor, que se vale da fantasia), eu vi, hoje, uma cena que me desanimou– um Rei Momo magro. Magro, não, magérrimo. Tudo bem que devemos dar o exemplo e que uma figura pública é vitrine para as demais. Agora, Rei Momo magro não dá, gente. É como Carnaval sem Luma de Oliveira.
Portanto, comei-vos e bebei-vos, foliões. Deixemos, pelo menos na semaninha do Carnaval, as responsabilidades de lado. Afinal, é para isso que ele serve… já que na quarta-feira de cinzas todos estaremos de volta ao dia-a-dia, com seus chatos – tenham eles razão ou não – e seus moinhos de vento.
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por Pacheco, Beto Pacheco
A cena é a seguinte:
O casal está em um carro luxuoso, seguindo para um hotel luxuoso e travam uma conversa que é um misto de flerte, provocação e disputa dialética. Lá pelas tantas, após um insinuante questionamento por parte dela em relação às intenções do homem, ele dá a seguinte resposta:
- Você não faz o meu tipo.
- E qual é? Burras?
- Não. Casadas.
A resposta é de ninguém mais ninguém menos que Bond, James Bond.
Vamos falar a verdade, é de se invejar tamanha canalhice. Uma canalhice bem ajustada, proporcional ao momento, no tom, na altura, no timbre e acorde certo. Tal qual um espião de Ian Fleming deve ser.
É, fácil-fácil, a melhor frase do filme. Gosto também quando, de volta à mesa de pôquer, logo após quase morrer envenenado, ele olha fixamente para o vilão – que orquestrou a tentativa de homicídio – e diz:
- Essa última mão quase me matou.
Boa piada. Contudo, essa última frase é bonitinha, mas ordinária – no sentido de trivial, comum da coisa. É apenas uma galhofa com a recente situação. Não se presta a demonstrar uma característica de personalidade. Já a outra, “Não. Casadas.”, é ordinária no sentido rodriguiano da coisa. Cafajeste na essência; seja sob, sobre ou alheia à cama, num armário ou lotação qualquer.
Ou seja, não há mar, língua, cultura ou gênero que modifiquem os seres humanos a tal ponto que não possamos ver o espelho de um James em um Vadinho (o de Dona Flor, do Jorge Amado) – no que se refere à canalhice, é claro.
O primeiro tem nome clássico, inglês, quase um chofer com licença para matar. O segundo pode significar a simbologia da vadiagem, o vadio, ínfimo nos detalhes e nas artimanhas. Mestre dos botecos e das mesas de sinuca. Que poderia até adotar a alcunha sem sufixo se não fosse chamado insistentemente de “inho” pela mulher que o ama. Amor recíproco – ela, independente das escapulidas dele; ele, independente de ela, após a morte dele, casar-se novamente.
E aqui estamos, na essência dos relacionamentos humanos. Seja Bond ou Vadinho; Fleming, Rodrigues ou Amado; Inglaterra ou Brasil; Londres ou Rio; Baker Street ou Baixa do Sapateiro, sempre haverá espaço e colo para os canalhas. Dos paralelepípedos baianos às fugas explosivas, sempre aparecerá um que, por uma noite que seja, poderá de deliciar com seus tipos preferidos.
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K7
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janeiro 22nd, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Achei uma caixa de sapatos dia desses cujo conteúdo havia fugido à minha memória: antigas fitas K7. Lembra delas? São espécimes extintos (talvez por conta da queda de um meteoro ou por um inverno intenso, não sei ao certo). Viveram no mesmo período em que as máquinas de escrever e os bolachõe de vinil dominaram a Terra. Tempos de cepacol, genius e Bamerindus. Era de Zico, Roberto Dinamite e Falcão. Ai, ai!
Pois fui fuçar as antigas fitas. Em sua maioria, eram daquelas compradas virgens, para que se gravasse o que bem entendesse por cima. Achei raridades que vão de Legião Urbana a Raul Seixas – de quando ambos ainda existiam. As capas eram produzidas a partir de recortes de revistas colados sobre a capa original. Outras fitas não eram reproduções de discos específicos, mas, sim, criações inéditas e apresentavam músicas gravadas do rádio, todas finalizadas com a vinheta da emissora.
Contudo, dentre tantas Basf, Sony e outras marcas que também já foram dessa para melhor, achei uma raridade. Uma fita K7 original. Inclusive com capa vinda de fábrica. É uma fita demo, com apenas cinco músicas. Três do lado A e duas do lado B. A capa traz (na contracapa) os números de registros das músicas e o nome dos compositores. Ela não tem “marca”; é branquinha e mostra, registrada no próprio plástico, os dados do álbum a qual se refere.
Pra melhorar ainda mais essa descoberta, a fita é um verdadeiro clássico. Podia ser que eu encontrasse um fita K7 com músicas da Xuxa, Roupa Nova, Rádio Taxi (sim, existia uma banda com esse nome), R.P.M ou, até, um exemplar de Atchim e Espirro (vai no Google), mas, não… Dei sorte, pois, deste sempre – pelo menos no que se refere à musica – minha família sempre prezou pelo bom-gosto.
A fita é um original (mesmo que K7) do AC/DC, do álbum Jailbreak’ 74. Fora comprada por, pasmem!, meu pai em 1984 e resistiu ao tempo dentro daquela caixa de sapatos. Sábado, tirei-a da capa e levai-a ao meu antigo aparelho de som. Peguei um cotonete, embebi em álcool e limpei o cabeçote… quem já fez esse processo sabe do que eu estou falando. Coloquei-a na posição e, tchan-tchan-tchan!, apertei o play. E ela tocou.
Foi um som abafado, mas perfeitamente audível. A fita estava intacta. Abri o deck, tirei a fita e procurei uma caneta bic. Pra quê? Se está me fazendo esta pergunta é porque deve ter nascido na década de 90. Engatei a caneta em um dos buracos presentes na fita e, com um habilidoso giro de mão, rebobinei-a. Fiquei alguns minutos ali, ouvindo aquele som do passado e com uma vontade danada de rebobinar todas as fitas… e, assim, me rebobinar por tabela.
Tags: AC/DC, Anos 80, Comportamento, Falcão, Fita K7, Genius, Jailbreak, K7, Nostalgia, Roberto Dinamite, Vinil, Zico -
janeiro 15th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Cada vez mais eu creio que uma das condições básicas para se atestar a humanidade de um ser-vivo é o índice de maluquice que ele alcança. É sério, a cada dia o mundo vê aumentar a quantidade de tan-tans que nele habitam. E quando digo tan-tan, é tan-tan mesmo. Pinel. Não que seja coisa só dos dias do hoje, haja vista o Calígula, que nomeou o próprio cavalo para senador. Segundo os historiadores (sempre eles!), o equino tinha direito até a toga na cor púrpura, aposentos de mármore e refeições à base de aveia e leite. E o Haiti naquelas…
O problema, a meu ver, é que a loucura tem se espalhado por todas as classes, cores, credos e perdeu o pudor. Antigamente, ela ficava restringida a imperadores, reis, monarcas, príncipes… essas figuras que, de tanto ter, não sabiam mais o que fazer da vida e ficavam caçando sarna pra se coçar. Agora, não. O troço descambou. Basta colocar uma câmera de tevê num calçadão de qualquer capital brasileira para ver a turba que junta em volta.
É neguinho dançando o Créu, popozuda querendo virar celebridade, artistas dos mais variados “talentos” querendo mostrar seus dotes custe o que custar, outros mandando beijo pra sogra, etc. E não bastassem os populares na realidade, virtualmente a telinha ainda nos brinda com seus reality shows e uma infinidade de camisas-de-força que se superam ano após ano. Pior!, agora existem as paródias dos reality shows – à la Pânico na TV e suas Panicats. Bom, pelo menos umas delícias em carne e osso a loucura nos reserva, senão era o fundo do poço com pá a tiracolo.
Indo mais embaixo ainda na escala da visibilidade da insanidade, e partindo em vertiginosa queda, chegamos aos malucos ocultos. Eles são a última linha antes da piração total – caso este que só se resolve com internamento e quarto acolchoado. Esses malucos não são reis, não são celebridades tresloucadas, muito menos populares que se jogam às ruas em busca de 15 minutos. Estes, ao contrário, são reclusos.
Eles ficam em suas casas e fazem coisas retardadas pelo puro prazer que lhes causam as bizarrices que planejam. Contudo, para o deleite dos expectadores afoitos que não se aguentam e precisam porque precisam chafurdar na desgraça alheia, há a internet. E da internet ninguém escapa. Dúzias de sites, editorias, blogs e portinhas digitais (dê-lhe Youtube), trazem as novidades relacionadas às loucuras pessoais inerentes a essa raça que surpreende cada vez mais por ter conseguido – sendo como é – conquistar o mundo.
No portal G1, da Globo, há uma editoria chamada Planeta Bizarro. Nela o desfile é diário e incessante. Por exemplo: descobri por lá que uma mulher guarda na geladeira, desde 1977, uma bola de neve… isso mesmo que você leu. Um dia, lá em 1977, nevou na terra da dita-cuja. Daí ela teve a brilhante ideia de pegar uma bola de neve e guardar para todo o eterno sempre. Sinceramente, tem coisa mais retardada que isso?! Se sim, me conte, pois vai merecer outra crônica.
E não para por aí. Vejam outras manchetes que encontrei:
Gato é convocado para júri nos Estados Unidos
Jovem inova e faz tatuagem de óculos no rosto
Clube de Los Angeles tem striptease com personagens de ‘Star Wars’
Ladrão é flagrado de lingerie
… sério, eu podia ficar o dia todo relatando, relatando e não ia acabar nunca. Só não o faço porque ia acabar entrando para a lista.
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outubro 13th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Vamos falar a verdade: camisinha é um saco (quase que literalmente). Tem coisa mais incômoda e inconveniente do que um pedaço de borracha a envolver o malandro na hora em que ele mais quer se divertir? Não. Definitivamente, não. Você lá, naquele calorão, euforia, rasga roupa daqui, arranca meia dali, sobe, desce, desce, sobe e… freia tudo! “Querido, coloca a camisinha”. Que tristeza. Eu sei, eu sei que é importante, que é uma questão de saúde, de prevenção, de responsabilidade, de contracepção, mas, convenhamos, é muito primitivo.
A camisinha é um treco danado de antigo e decorre, segundo estudiosos, de civilizações anteriores a Cristo (cuja igreja oficial – a qual, dizem, ele pertence – não aprova o preservativo). Puxa vida!, será que não conseguiremos criar – e já faz dois mil anos que vivemos esse martírio – algo mais moderninho do que essa capinha emborrachada? Sei lá, uma vacina, uma pílula, um spray, qualquer coisa. Ou, já que não fomos capazes de avançar tecnologicamente no assunto, que, pelo menos, tentemos facilitar a vida na hora do rala-e-rola.
Eu lembrei, por exemplo, de um mecanismo que poderia inspirar nossos cientistas a bolar uma saída mais rápida e prática na prévia do sexo – aquela maldita e infinita hora em que se coloca a camisinha. Sabe aqueles carros modernos que, ao você entrar e fechar a porta, automaticamente posicionam o cinto de segurança no lugar? Então, imagine uma calça ou bermuda que tenha um badulaque que fique por dentro com a camisinha previamente posicionada. Basta você tirar a calça e, vlupt!, ela automaticamente engata o preservativo na parte que lhe cabe.
Seria fantástico! Você prestes a dar aquela rapidinha – clássica e emocionante – no carro, no elevador, no corredor, atrás de uma moita, ou seja lá onde seu fetiche caiba, e, ao tirar as calças, vlupt!, a camisinha está lá antes mesmo que você possa dizer Pindamonhangaba (sei lá por que escolhi Pindamonhangaba, mas agora já foi). Não resolveria de todo o problema, é fato, que não está só no colocar, mas, também, no horrível ralar de borracha, nhec-nhec-nhec, mas, vá lá, teríamos meio-caminho andado.
Contudo, dois empecilhos precisariam ser resolvidos para que tal engenhoca dê certo. Primeiro, o companheiro dos países-baixos teria que estar em posição de sentido para que o preservativo o vista sem problemas. O alerta viria no manual de instruções, que, obviamente, deveria ser lido previamente. “Peraí, querida, antes de tirar as calças eu preciso ler o manual.” Convenhamos, uma atitude dessas inutilizaria os benefícios da maquininha.
O segundo é criar um chip que fizesse a leitura da situação. Como assim? Explico. Vai que o rapaz, cujas calças carregam o P.A.C.T. (Preservativus Automaticus Colocators Tabajara) está, simplesmente, indo ao banheiro. Chega lá, esquece da ferramenta, abre a braguilha e, vlupt!, és encapado antes mesmo de colocar o líquido pra fora. Deus o livre! Ainda mais se o coitado estiver apertado. É…, tomara que a ciência evolua, caso contrário o negócio é continuarmos com o atual método, tão primitivo quanto essa deturpada mente que vos escreve.
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outubro 6th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Digamos que o casamento seja liberado aos padres… Já pararam para pensar?
É simples: todo mundo sabe que, mesmo proibidos, alguns padres sempre deram um jeitinho por baixo dos panos – ou das batinas, sei lá. Não podendo casar oficialmente, eles conseguem usufruir sem terem que assumir. Ao liberar o casamento, a Igreja, simplesmente, tornaria a vida deles um inferno.
Imaginem vocês o vigário tendo que explicar para a esposa que, em pleno domingo, tem missa às sete, às dez, almoço na paróquia, encontro de jovens (jovens, sei, sei…), missa às dezenove e que só chegará em casa depois das vinte e duas. É morte na certa. Pior: quem é que faria a extrema-unção do padre finado?
- Chama o bispo! Chama o bispo!
- O bispo não pode, teve que ir buscar a sogra na rodoviária.
E a mulher do coitado, fula da vida, só de olho na loira que sempre senta na primeira fila durante a missa. O rapaz lá no altar, trabalhando, concentrado, e a esposa proferindo insultos sobre a sem-vergonha. Quando chega o momento da “paz de cristo”, as duas já estão rolando no chão, descabeladas.
E se a esposa frequentar a mesma paróquia, vai se confessar com o marido?
- Reze 18 ave-marias, 15 pais-nosso, e tudo ajoelhada no milho!
- Mas eu não fiz nada, querido!
- Viu só? É pelo pecado da mentira, meu bem.
Ou então:
- Padre, eu pequei.
- Eu sei, minha filha. Agora, fale baixo que a minha mulher pode escutar.
Padre bonitão, então, seria um problema. Teria gente se entregando desde cedo:
- Quem chegar por último é mulher do padre!
- Ai! Torci meu tornozelo… Perdi.
Os problemas são infinitos e atingem toda a comunidade. Pense na família do padre. Claro, pois ele também teria filhos. Com as coisas custando os olhos-da-cara, e precisando comprar fralda, leite, remédios, roupinhas, etc., o dízimo certamente seria inflacionado. Não passariam mais cestinhas e, sim, bacias para recolher o dinheiro da comunidade.
E ai de quem não colaborasse…
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A guerra
2
setembro 18th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Um amigo, de quem não citarei o nome por questões éticas (e por ser casado atualmente), gosta(va) de se referir às baladas como “ir para a guerra”. Gosto da analogia. Pensando nisso, resolvi imaginar como seriam os participantes dessa batalha. E juro, juro mesmo!, que não me inspirei em ninguém para tal.
O granadeiro:
O cara é casca grossa. Vai na linha de frente, sem medo do inimigo. Se bobear, parte para o ataque sem capacete nem nada, só com as próprias armas. É acostumado a usar equipamentos de impacto, que atingem uma grande área, mas sem muita precisão. Granadas, lança-chamas e morteiros são suas armas preferidas. Ou seja, na hora da “guerra”, o figura é sem-noção. De acordo com a característica das armas que usa, acaba atingindo de tudo. Não tem preconceito em relação às baixas que irá causar. Não distingui dentre os inimigos o general do soldado raso. Por isso, é sempre bom tê-lo ao seu lado, pois, entre duas, você sabe em qual ele vai… mas, cuidado!, às vezes ele te coloca em enrascadas pelo ímpeto e pela pressa de entrar em combate.
O atirador de elite:
Dificilmente respinga sangue no maldito. Ele fica lá, sempre à espreita. Escolhe os alvos estratégicos e normalmente não desperdiça munição. Como usa armas de precisão, basta um tiro. Portanto, tem que se assegurar que não errará. Mas normalmente é bem sucedido. Uma questão importante no atirador de elite é o talento nato. Ou seja, ele nasce para isso. Nem tente treinar um granadeiro para ser atirador de elite porque irá quebrar a cara. O granadeiro não tem paciência suficiente. Outra coisa: a experiência é fundamental nessa função. E tem mais: o atirador de é destacado para missões de relevância e, assim, só abate oficiais. Contudo, às vezes, não aproveita tanto à batalha por ficar esperando a hora certa.
O tático
Há um soldado nessa “guerra” que organiza os trabalhos da equipe. Ele chega e olha o ambiente. Já define a melhor posição para que todos fiquem e começa a selecionar os alvos. A comunicação neste caso é feita através de códigos: “Loira de vermelho às 13 horas”. Mas nem sempre a organização dá resultado porque o inimigo tem suas táticas de defesa também. Sem contar o maldito e incontrolável ímpeto do granadeiro, que já sai soltando rojão e partindo para cima sem pensar muito. Já disse, cuidado com o granadeiro!
Soldado vindo da enfermaria
Hum… Esse é um problema. O cara já esteve na “guerra” e foi abatido. Passou um longo período de recuperação e agora está de volta ao campo de batalha. A mira não está muito boa, mas você percebe um potencial. Os companheiros de regimento tentam ajudar, “Tira os óculos quando for falar com a mina que não tem erro”. Contudo, nem sempre ele dá ouvidos e acaba só acertando o vento. Para colocá-lo novamente em ponto de bala é necessário treinamento e fazer a “guerra” nos lugares certos. Nada de jogar o rapaz acostumado a florestas em batalha urbana, pois o risco de baixa em menos de 20 minutos é iminente.
A cavalaria
A batalha começou bem. O atirador de elite já escolheu o alvo certo, o granadeiro já saiu detonando o que via pela frente (deixemos claro que isso não é sinal de “acertar” algum alvo, pois muitas vezes ele só espanta com o barulho que faz), o tático já se posicionou e o soldado vindo da enfermaria, mesmo com algumas ataduras ainda, também já começou os trabalhos. Entretanto, alguma coisa dá errado. Não há explicação. Os inimigos fazem um movimento rápido e desestruturam toda a estratégia de ataque. Daí vem a cavalaria. Chega normalmente com uma tirada que recupera o ânimo da equipe e recoloca os alvos na mira novamente. É um papel fundamental e que poucos têm a perspicácia (gosto desta palavra) para cumprir.
Jipeiro
Só dirige o veículo, mais nada.
Soldado da reserva
Sabe aqueles caras que já cumpriram com as suas obrigações na “guerra” e agora estão acomodados? Pois bem, alguns deles, por baixo dos panos, continuam dando seus tirinhos. Esparsos e com silenciadores, é verdade, mas não fugiram totalmente da luta. Quando menos se espera, estão novamente no fogo cruzado. É preciso ficar de olho neles, pois vêm com um apetite impressionante e costumam atravessar a frente do companheiro sem pedir licença.
O alvo
Raras vezes o combatente vira alvo. Ou seja, é escolhido ao invés de escolher. E quando isso ocorre, há um porém: corre-se o risco de que aquela que está atirando em você não seja quem você queria que lhe atingisse. Entendeu? E aí, o que fazer? Bem, há uma série de táticas de esquiva: “Tenho namorada”; ou, “Hoje só vim curtir com meus amigos”. O problema é que, usando estas respostas, perde-se oportunidade com tropas adjacentes. Se é que você me entende…
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Tags: Comportamento -
setembro 3rd, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Uma balada cheia de máscaras; ou um boteco com os amigos?
Plumas e paetês; ou jeans e camiseta?
Um carro “tunado”; ou um que tenha volante, cinto de segurança e rodas?
Música eletrônica; ou música?
Auto-ajuda; ou José Saramago?
Tênis de 500,00 R$; ou um confortável que lhe agrade independente do preço?
Embalagem; ou conteúdo?
Big Brother; ou Roda Viva?
Latino; ou Chico Buarque?
Modismos; ou autenticidade?
Economizar; ou viajar?
Ser pontual e metódico sempre; ou se atrasar um dia e relaxar?
Cuidar do penteado; ou tomar banho de chuva?
Terno e gravata; ou havaianas e bermuda?
Acumular; ou compartilhar?
Imagem; ou essência?
Etiqueta; ou comer melancia no quintal?
Conta bancária; ou contar histórias?
“Sabe com quem você está falando?”; ou “Muito prazer!”?
Cargo; ou competência?
Sobrenome; ou nome?
Reverenciar, ou cumprimentar?
Valorizar bens; ou simplesmente um olhar?
Ter; ou ser?
Tags: Comportamento, Pensamento

