Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-
outubro 13th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Vamos falar a verdade: camisinha é um saco (quase que literalmente). Tem coisa mais incômoda e inconveniente do que um pedaço de borracha a envolver o malandro na hora em que ele mais quer se divertir? Não. Definitivamente, não. Você lá, naquele calorão, euforia, rasga roupa daqui, arranca meia dali, sobe, desce, desce, sobe e… freia tudo! “Querido, coloca a camisinha”. Que tristeza. Eu sei, eu sei que é importante, que é uma questão de saúde, de prevenção, de responsabilidade, de contracepção, mas, convenhamos, é muito primitivo.
A camisinha é um treco danado de antigo e decorre, segundo estudiosos, de civilizações anteriores a Cristo (cuja igreja oficial – a qual, dizem, ele pertence – não aprova o preservativo). Puxa vida!, será que não conseguiremos criar – e já faz dois mil anos que vivemos esse martírio – algo mais moderninho do que essa capinha emborrachada? Sei lá, uma vacina, uma pílula, um spray, qualquer coisa. Ou, já que não fomos capazes de avançar tecnologicamente no assunto, que, pelo menos, tentemos facilitar a vida na hora do rala-e-rola.
Eu lembrei, por exemplo, de um mecanismo que poderia inspirar nossos cientistas a bolar uma saída mais rápida e prática na prévia do sexo – aquela maldita e infinita hora em que se coloca a camisinha. Sabe aqueles carros modernos que, ao você entrar e fechar a porta, automaticamente posicionam o cinto de segurança no lugar? Então, imagine uma calça ou bermuda que tenha um badulaque que fique por dentro com a camisinha previamente posicionada. Basta você tirar a calça e, vlupt!, ela automaticamente engata o preservativo na parte que lhe cabe.
Seria fantástico! Você prestes a dar aquela rapidinha – clássica e emocionante – no carro, no elevador, no corredor, atrás de uma moita, ou seja lá onde seu fetiche caiba, e, ao tirar as calças, vlupt!, a camisinha está lá antes mesmo que você possa dizer Pindamonhangaba (sei lá por que escolhi Pindamonhangaba, mas agora já foi). Não resolveria de todo o problema, é fato, que não está só no colocar, mas, também, no horrível ralar de borracha, nhec-nhec-nhec, mas, vá lá, teríamos meio-caminho andado.
Contudo, dois empecilhos precisariam ser resolvidos para que tal engenhoca dê certo. Primeiro, o companheiro dos países-baixos teria que estar em posição de sentido para que o preservativo o vista sem problemas. O alerta viria no manual de instruções, que, obviamente, deveria ser lido previamente. “Peraí, querida, antes de tirar as calças eu preciso ler o manual.” Convenhamos, uma atitude dessas inutilizaria os benefícios da maquininha.
O segundo é criar um chip que fizesse a leitura da situação. Como assim? Explico. Vai que o rapaz, cujas calças carregam o P.A.C.T. (Preservativus Automaticus Colocators Tabajara) está, simplesmente, indo ao banheiro. Chega lá, esquece da ferramenta, abre a braguilha e, vlupt!, és encapado antes mesmo de colocar o líquido pra fora. Deus o livre! Ainda mais se o coitado estiver apertado. É…, tomara que a ciência evolua, caso contrário o negócio é continuarmos com o atual método, tão primitivo quanto essa deturpada mente que vos escreve.
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outubro 6th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Digamos que o casamento seja liberado aos padres… Já pararam para pensar?
É simples: todo mundo sabe que, mesmo proibidos, alguns padres sempre deram um jeitinho por baixo dos panos – ou das batinas, sei lá. Não podendo casar oficialmente, eles conseguem usufruir sem terem que assumir. Ao liberar o casamento, a Igreja, simplesmente, tornaria a vida deles um inferno.
Imaginem vocês o vigário tendo que explicar para a esposa que, em pleno domingo, tem missa às sete, às dez, almoço na paróquia, encontro de jovens (jovens, sei, sei…), missa às dezenove e que só chegará em casa depois das vinte e duas. É morte na certa. Pior: quem é que faria a extrema-unção do padre finado?
- Chama o bispo! Chama o bispo!
- O bispo não pode, teve que ir buscar a sogra na rodoviária.
E a mulher do coitado, fula da vida, só de olho na loira que sempre senta na primeira fila durante a missa. O rapaz lá no altar, trabalhando, concentrado, e a esposa proferindo insultos sobre a sem-vergonha. Quando chega o momento da “paz de cristo”, as duas já estão rolando no chão, descabeladas.
E se a esposa frequentar a mesma paróquia, vai se confessar com o marido?
- Reze 18 ave-marias, 15 pais-nosso, e tudo ajoelhada no milho!
- Mas eu não fiz nada, querido!
- Viu só? É pelo pecado da mentira, meu bem.
Ou então:
- Padre, eu pequei.
- Eu sei, minha filha. Agora, fale baixo que a minha mulher pode escutar.
Padre bonitão, então, seria um problema. Teria gente se entregando desde cedo:
- Quem chegar por último é mulher do padre!
- Ai! Torci meu tornozelo… Perdi.
Os problemas são infinitos e atingem toda a comunidade. Pense na família do padre. Claro, pois ele também teria filhos. Com as coisas custando os olhos-da-cara, e precisando comprar fralda, leite, remédios, roupinhas, etc., o dízimo certamente seria inflacionado. Não passariam mais cestinhas e, sim, bacias para recolher o dinheiro da comunidade.
E ai de quem não colaborasse…
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setembro 24th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Alguém (que não lembro quem foi) disse certa vez (que não lembro quando foi) que você não escolhe ir à guerra e, sim, a guerra escolhe vir até você. Concordo, ainda mais depois da tarde de hoje. Eu estava tranquilão trabalhando no meu computador, coisa que faço todos os dias, mesmo depois de trabalhar a noite toda (trabalho em vários turnos – diurnos e noturnos), tocando e escrevendo, quando resolvi ir à cozinha pegar algo para comer. Pois foi nesse momento que vi as tropas inimigas marchando rumo ao alvo: um bolo de chocolate que estava sobre a mesa.
Formigas, rapaziada, muitas, mas muitas formigas. Seguiam alinhadas, como tropas treinadas, porta adentro. Num primeiro momento, fiquei sem reação. Pensei em ligar para o 190 a princípio, mas daí pensei: Beto, você é um homem ou um rato? (creio que isso tenha sido dito outrora por alguém também – cujo nome não me recordo. Acho que estou com problema de memória). Levei alguns segundos até me recompor e planejar minha ação.
Primeiro, calculei a distância entre a porta e a mesa para ter uma noção da quantidade de inimigos que enfrentava – é sempre importante conhecer o inimigo e, principalmente, quantos são. Após terminar a contagem, percebi que teria dificuldade em vencê-las. A questão era: que armas usar? Comecei com uma vassoura (sei que parece cruel, mas você pensa assim porque nunca enfrentou inimigos tão decididos) e varri sem dó as formiguinhas para fora de casa. Depois, transferi o bolo de posição e passei um pano sobre a mesa para dar o trato final.
Não sofri nenhuma retaliação e julguei ter vencido a batalha. Como já tinha, além de duelar com as formigas, trabalhado tudo o que devia (uma pegada na madrugada, de violão em punho, e outra à tarde, escrevendo, atualizando site e “marketiando”) decidi dar uma volta com o meu cachorro. Minutos depois, voltei para casa e deparei-me com o horror… elas voltaram. A mesma fila, o mesmo bolo, a mesma cara-de-pau de invadir a casa de gente de família para roubar descaradamente a despensa alheia. Pois fale mal do meu cabelo (falta de), da minha pança de cerveja, da minha preguiça crônica, mas não mexa com a minha comida. Agora era guerra!
Vassoura de novo; só que, dessa vez, varri as danadas até a rua, sem dar chance para que encontrassem o caminho de volta. Mordendo os lábios de raiva, peguei álcool e borrifei no chão todo – para inibir o olfato das lazarentas. Joguei o bolo no lixo e lavei toda a louça (atitude louvável e rara, é bom que se diga). Contudo, eu sabia que não bastava. Precisava atacá-las em seu quartel general… e foi o que fiz. Segui o rastro até descobrir de onde elas partiam: um buraquinho que ficava sob uma lajota trincada, lá na garagem.
Lembrando os meus tempos de piá (ou guri, garoto, menino, moleque, para os não curitibanos), decidi usar armas químicas (que a ONU me perdoe…) e taquei detergente na porta do QG inimigo (fui bacana, diz aí, pelo menos não usei uma lupa para tostá-las). As formigas não apareceram mais, o que me faz pensar que venci a guerra. Só tenho medo de ser arrastado da minha cama, por vingança, durante a noite. Mas vou preparar armadilhas e alarmes ao redor para evitar possíveis problemas… Ah, e amanhã vou comprar um novo tubo de detergente.
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por Beto Pacheco
O redator começa a escrever:
Logo após o término da peça, o pequeno Bruce e seus pais saem do teatro e se encaminham para o carro através de um beco…
– Hei, pode parar com essa história!
– Quem tá falando?!
– Sou eu, oras!, o Sr. Wayne.
– Ahn?!
– Isso mesmo, seu escritorzinho de meia-tigela. Já estou cansado de ser morto na primeira página. A partir de agora, quero ir até o final.
– Mas você é só um personagem, como pode falar?
– É só colocar o travessão na frente da frase, mas isso não vem ao caso. Faz cinquenta anos que acabam com a minha chance de virar estrela. Assim não é possível. Sou rico e poderoso, posso ser muito mais do que esse pirralho do Bruce. Mas, não! Vocês acham que o pai tem que morrer. Senão, qual será o drama a impulsionar a aparição do “grande” Batman? Ridículo!
– Mas essa sempre foi a história do Morcego. Sem contar que esse modelo faz sucesso há séculos. Relembra as grandes tragédias…
– Blá, blá, blá… Não vou morrer e pronto.
– Impossível! O que os milhões de fãs ao redor do mundo vão dizer? E tudo o que foi produzido até hoje, jogaremos no lixo?
– Você fala isso porque fica aí, do outro lado, só replicando a mesma lengalenga de sempre. Não vive a minha rotina. Já pensou o que é, eternamente, ver a mesma peça, dizer as mesmas falas, fazer o mesmo trajeto e, pior!, sempre com a mesma mulher.
– Deus me livre!
– Tá vendo?! E tem mais: ela é o diabo. Fica repetindo o tempo todo: “Você é um imprestável. Sabe que se nós formos por aquele beco vai dar m…” Rapaz, não aguento mais.
– Nossa, é mesmo. E por que você aceita uma coisa dessas? Se fosse comigo, já tinha me separado há tempos.
– Você é um cara-de-pau mesmo. Sabe que bem que tentei, mas vocês sempre me fuzilam antes que eu possa fazer qualquer coisa. É entrar neste maldito beco e pimba! A culpa é sua, sabia? Sua e daqueles que o precederam, sempre se escondendo atrás das penas, das máquinas de escrever ou dos computadores. Agora, você vai me ajudar. Pode continuar a história, mas me mantendo nela até o final.
– Tá maluco?! É o meu emprego que está em jogo. Não vou mudar um clássico, escrito há décadas, porque você está em crise conjugal. Essa briga não é minha. Desculpe-me, mas cada um com seus problemas.
– Espera…
– FIM.
Atordoado, o redator deixa o “morcego” para mais tarde e parte para outra história:
Amanhecia em Krypton…
– Hei, pode parar!
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agosto 21st, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Ontem, no bar (pois é…), levantou-se uma questão muito, mas muito, curiosa. Para que, raios!, serve a corcova do camelo? Se preferir, como fizeram alguns presentes no momento da discussão: para que serve a “cacunda” do camelo? Pois teorias não faltaram. “Serve para armazenar gordura”, disse um. “Não, ela é depósito de água e por isso ele aguenta tanto tempo no deserto sem beber”, remendou outro. “São as bolas do camelo… AS BOLAS!”, afirmou um terceiro, empolgado.
A primeira teoria, a da gordura, me pareceu meio sem sustentação. Afinal, para que acumular gordura nas costas do bicho? Se fosse por conta de proteção térmica, melhor seria um estoque homogêneo em volta do camelo todo. Tudo bem, sei que os animais têm a tendência de acumular gordurinhas localizadas (inclusive, neste quesito, eu tenho um leve parentesco com o camelo, pois carrego um sutil – sutil mesmo, por quê? – estoque de gordura nas laterais da barriga. Tá, admito, na dianteira também… vai ver que é para compensar as duas corcovas), mas acho que imaginá-lo em forma de dois montinhos nas costas algo meio exagerado.
A segunda teoria foi a mais bem embasada a princípio: seriam estoques de água. Todo mundo sabe da fama do camelinho; portanto, ele poderia muito bem beber, beber, beber, beber, beber, encher aqueles dois balaios com o precioso líquido e atravessar o Saara como quem vai do Boa Vista a Piraquara. “Tanto que, se você for no zoológico e o camelo não tiver bebido recentemente, você vai ver que as cacundas deles estarão murchinhas”, defendeu o teórico, com muito embasamento. Mas algo me diz que não é isso não, pois nunca vi camelo com corcova murcha, pendendo na lateral do animal como se fossem duas bolsas Louis Vuitton (piratas, óbvio) vazias.
Eu, particularmente, sempre acreditei que elas serviam para firmar o passageiro sobre o bicho com segurança. Explico. Se você não sabe, camelo é meio de transporte – apesar de eu nunca ter montado num para testar se eles me detestam tanto quanto os cavalos –, então, pensem bem: o camelotorista (que é quem pilota camelo) senta entre as duas cacundas, sendo que a de trás serve para dar apoio às costas e a da frente para proteger a cabeça do motorista das molas vindas de carros de Fórmula 1 que possam estar logo à frente (se o piloto do carro for o Rubinho, vai voar mola com certeza… mas pelo menos você fará a ultrapassagem nele sem muita dificuldade).
Quanto a serem as corcovas as bolas do camelo, me nego a comentar. Por quê? Simples: se fosse assim, só existiria camelo macho – o que inviabilizaria a reprodução da espécie, mas preservaria o saldo dos cartões de créditos da camelada (sempre há os lados negativos e positivos das coisas, rapaziada). “Ah, mas eles nascem do Espírito Santo dos camelos”, tentou salvar o defensor da tese, sem sucesso.
E temos de nos lembrar dos dromedários – que dão, por si só, outro tratado. Afinal, por que Deus, que é bom, onisciente e protetor de suas crias, deu ao dromedário apenas uma cacunda? Puxa vida, assim, o coitadinho sente-se inferiorizado perante o camelo, meu povo. Isso não se faz, tstststs! Alguns dizem que o dromedário é um camelo que não se desenvolveu por completo. Porém, se assim fosse, ele se chamaria pré-camelo e não dromedário. Aliás, quem inventou o nome estava inspirado, né não?
Outros dizem que o dromedário é um camelo que, pobrezinho!, nasceu sem corcovas e, com o passar do tempo, por má postura ao usar o computador e na falta de um engenheiro de segurança para corrigi-lo, desenvolveu uma corcunda. Hum… Não sei, não sei, tenho lá minhas dúvidas. Esse papo de corcunda ganha força também naqueles adeptos de que a origem dos dromedários é francesa, parisiense – mais precisamente das redondezas de Notre Dame – e de que eles apenas migraram posteriormente para o Egito e cercanias.
Aliás, “cercania” é uma boa palavra para ser usada por ignorantes, como eu, que, além de não saberem patavina sobre camelos, dromedários e quasímodos, ainda têm preguiça de pesquisar no Google para descobrir a verdadeira procedência de seres tão intrigantes. Por falar nisso, alguém aí sabe o que significa Quasímodo? Alguns dizem que é um marsupial, mas tenho cá minhas dúvidas…
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por Beto Pacheco
O jantar transcorria calmamente até o pai perguntar:
– Filho, o que você quer ganhar de presente de aniversário?
– Uma bola de meia.
– O quê?!
– É, pai, uma bola de meia.
– Está vendo, mulher, isso que dá toda essa liberdade com que você cria esse menino.
– Mas… (A mulher tenta falar)
– Sem “mas”, mulher. – O marido volta à carga: – Filho, escute aqui, você não quer um robô que solte raios?
– Não.
– Então, um carrinho de controle-remoto?
– Não.
– Já sei! Uma bicicleta?
– Não.
– Então, já que quer uma bola, que seja uma moderna, impermeável…
– Não! Já disse, pai, eu quero uma bola de meia.
– Meu Deus do céu, Maria Raquel, o que está acontecendo com esse menino?
– Eu acho… (A mulher tenta de novo).
– Você não acha nada! – o marido a interrompe – Não está vendo o tamanho do desastre, mulher? Gasto uma fortuna com colégio, material, aula de informática, inglês… E ele quer uma “bola de meia”?! Filho, você tem que se preparar para o mundo lá fora. Não dá mais para viver no passado, a tecnologia não pára de crescer.
– Mas, pai, se eu tiver uma bola de meia vou ficar habilidoso como o Quinzinho.
– Quinzinho? Quem é Quinzinho?
– Ele… (A mãe… pois é…)
– Deixa o menino falar, Maria Raquel.
– Ele mora ali na vila, pai.
– Você anda frequentando a vila?
– Não, pai, o Quinzinho que vem aqui na rua jogar com a gente. Precisa ver como ele é bom.
– Não, filho, nada disso! Você vai ser um Einstein, um Sabin, não vou criá-lo para ser boleiro.
– Mas, pai…
– Sem “mas”, esse assunto está encerrado. Maria Raquel, pode me passar o sal?
– Não, Rodolfo, não posso! (A mulher levanta o tom de voz)
– Ficou louca, mulher?
– Não, eu não. Quem ficou louco foi você. Está neurótico com essa história de tecnologia. Quer saber, temos que cultivar as coisas boas do passado também. E o que você fez de tão grandioso na vida para cobrar seu filho dessa maneira?
– Maria Raquel, por que você…
– Cala a boca, Rodolfo, não fale mais nada. O garoto vai ganhar uma bola de meia, sim. E mais: continuará jogando com o Quinzinho, com o Zezinho e com todos os ‘inhos’ que quiser.
– Querida, eu só queria…
– E quer saber de outra coisa: eu uso bobes no cabelo…
– Não comece, Maria…
– Isso mesmo. E preparo a massa do macarrão em casa…
– Pare!
– Quando seu filho está doente, não o levo ao médico… preparo um chá de boldo e pronto.
– Ai!
– Passo o café no coador de pano…
– Você está querendo me matar?! É isso? Porque se for, me dê logo um tiro.
– Gosto de coisas mais tradicionais, Rodolfo, como veneno…
– Maria Raquel, você não…
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Batgirl
2
por Beto Pacheco
Mônica e Eduardo já estavam no terceiro chope quando ela perguntou:
- Você acha que a sociedade mudou muito depois que os gregos criaram a “pólis”?
- Ahn?
- É, eu acho que era mais tranquilo quando só tínhamos tribos e comunidades familiares.
- Onde era isso?
Eduardo era meio desligado.
- Na Antiguidade.
- Sério?! Como eles conseguiam?
- Fácil. Era uma sociedade hierárquica: o avô mandava no pai, que mandava no filho, que não mandava em ninguém.
- E isso faz tempo?
- Foi antes de Cristo.
- Caraca! Achava que ninguém existia antes de Cristo.
- Pelo amor de Deus, Eduardo!
- Não, sério!, a única “polis” que eu conheço é a “Metrópolis”.
- Ahn?
- É, lá onde morava o Clark Kent, não lembra?
- Aquele que era jornalista?
- Não deprecia o garoto, Mônica. Ele era o Super-Homem, lembra? Planeta Diário, Lois Lane…
- Mais ou menos.
- Não é possível! E do Homem-Aranha? Era o maior! Eu gostava porque ele não voava e, assim, parecia mais real.
- Como não voava, Eduardo? Ele sempre tava indo de um prédio para o outro.
- Era por causa das teias.
- Rá! Teias!? Era só o que me faltava. Agora dá para entender porque você não sabe o que é a “pólis”.
- Claro que sei. Inclusive, lembrei de mais uma: “Patópolis”.
- Puta que pariu!
- Tá vendo?! Você é muito impaciente e sempre temos que conversar sobre os seus assuntos.
- Também, você só sabe falar de personagens de gibis.
- Você que não relaxa e não entra na brincadeira.
- Certo, Du, desculpe. É que a única de quem eu gostava mesmo era a Batgirl.
- Nossa!, dessa eu lembro bem. Trabalhava na noite, lé em Campo Largo.
- O QUÊ?!
- Hum… Deixa pra lá.
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julho 27th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
A verdade está lá fora… mas beeem escondidinha. Lembram que semanas atrás escrevi um texto falando sobre grupos e seres que vivem neste mundo para nos atazanar a vida, cuja única função é nos fazer viver atormentados e que vivem a nos cercar dissimuladamente? Pois eles (seja lá quem forem) voltaram a atacar. Ontem fiquei trabalhando no meu computador até tarde; desliguei-o normalmente, apertando as teclas devidas e respeitando o famoso aviso “aguarde enquanto o seu computador é desligado”.
Ou seja, fui correto, coerente, respeitador das regras, paciente, mas, mesmo assim, eles me pegaram. Acordei hoje, abri meu computador como sempre faço, coloquei o login, a senha… e nada. Ele simplesmente não aceitou. Fiquei tranquilo, “vai ver a Caps Lock tá acionada”, pensei. Que nada. Tentei de novo, e de novo, e de novo, e de novo e… “FILHO DA PUTA!”, gritei e bati com a mão na mesa de raiva. Incrível como uma coisinha de nada dessas, como não conseguir entrar no seu computador, simplesmente o local onde está todo o seu trabalho, os seus arquivos, as suas fotos, os seus pensamentos, ou seja, a sua vida, pode te tirar do sério.
Respira, Beto, respira… Gus-fabra!, Gus-faaabra!, (Pois é, tive que aderir ao mantra do Dr. Buddy Rydell, personagem de Jack Nicholson naquele filme “Tratamento de Choque”, com o Adam Sandler. Muito divertido). Pense, Paulo Roberto, não deve ser nada demais, afinal, é apenas uma máquina, ela não pode te vencer. Vamos de novo… Login… senha… enter… “Sua senha ou login não estão corretos, veja se a tecla Caps Lock não está ativada”. EU JÁ VIIIIIIIII! FILHO DA PUUUUUUUUUUUUUTA! ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, LOGIN, SENHA, ENTER, ENTER, ENTER… AHHHHHHHHH!
“Muito bem, quem é o animal superior aqui, hein?” – Decidi mostrar quem manda – “Quem foi que te inventou, sua máquina diabólica? Eu te conheço, você saiu da mente humana e não me vencerá. Eu crio a lógica, eu conserto, eu pesquiso, eu descubro, eu, eu e EEEEEU, entendeu?”… Mas sem sucesso. O computador havia me colocado contra as cordas e era hora de resolver a parada de maneira lógica: com uma luta até a morte. No corner vermelho, pesando… sei lá, 70Kg – claro que é 70Kg, tá pensando o quê? Eu me cuido, viu!? – de calção tricolor e ao som de Eye Of The Tiger: Beto Pacheco (ouve-se o som histérico dos fãs). No canto azul, pesando alguns gramas, vestindo teclas e tela LCD, tendo o mouse como arma principal: oooooooo… Laptop “the butcher” Dell.
Pois eu havia me enganado. Bastou eu ouvir a chamada do locutor para perceber que meus minutos estavam contados. Se eu continuasse, seria como a luta do Adilson “Maguila” Rodrigues contra o Evander Holyfield – o Macunaíma de fala pastosa durou só três socos contra o gringo e foi à lona. Portanto, eu precisava de ajuda profissional. Saquei a minha agenda – que fica no meu celular, outro aparelhinho que se decidisse ficar de birra também acabaria com o meu dia – e liguei para o Alex, um amigo que adestra computadores.
“Alex, socorro!”, fui avisando antes mesmo de dizer alô! “O que foi dessa vez?”, ele mandou do outro lado já sabendo que eu estava sob ataque virtual novamente (como disse, é um complô que me persegue há anos). Contei o ocorrido e ele, pacientemente, foi me dando as coordenadas. Faça isso, depois isso, depois aquilo, agora vai parecer isso, achou?, então clica ali, depois ali e pronto. Fantástico! “Alex, você é quase um Bill Gates, rapaz”, falei. “Vá à merda!”, ele agradeceu. Imagino que ele também trabalhe com teatro.
Agora está tudo beleza. Contudo, estou me preparando para não ser pego de surpresa de novo. Fiz backup, tirei a senha do meu login para entrar direto, coloquei arames farpados em volta da casa, blindei o carro, levei a família, inclusive o meu cachorro, para fazer treinamento de guerrilha e agora mantenho o laptop preso no alto da torre, vigiado por um dragão que cospe fogo. Só assim, minha gente, venceremos esta guerra. Assim e colocando máscaras (principalmente no computador)… afinal, esse tal de vírus tá se espalhando.
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julho 27th, 2009Dicas de MúsicaJack Nicholson e Adam Sandler cantam – e dão show – no filme “Tratamento de Choque”.
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julho 26th, 2009Crônicaspor Beto Pacheco
Quando se tem oito, nove, dez anos, só há uma grande preocupação na vida: será que algum dia farei um gol de bicicleta? Eu treinava no quintal da minha casa sozinho. Jogava a bola para cima, me preparava para o movimento, e tentava acertar o tempo de bola. Normalmente eu furava o chute, dava de canela, levava uma bolada na barriga e caía chapado arrebentando as costas no chão. Infelizmente, hoje, eu sei a resposta para aquela preocupação: nunca fiz nenhum gol de bicicleta (mas é bom que se diga que de voleio eu já fiz).
Passado este período, chegamos às intempéries que se situam entre os 11 e 13 anos. A chamada fase da pré-adolescência. É neste ponto que deixamos de nos preocupar um pouco com o gol de bicicleta (mas só um pouco) e passamos a reparar naquela moreninha de cabelos lisos que senta à carteira em frente, na sala de aula. Repentinamente, paramos de pegar no pé dela, diminuímos o ritmo das brincadeiras e passamos a espremer espinhas em frente ao espelho.
Recém entrado nesta fase – não lembro exatamente a data, pois minha memória não é muito fotográfica – foi que eu fiquei sabendo de uma atividade muito popular entre meninos e meninas desta idade: chamava “festa americana”. “É que nem mãe-cola?”, perguntei pra um amigo mais velho. “Mais ou menos, só que com refrigerante e salgadinhos”, ele respondeu. Mãe-cola com upgrade, já estava gostando da brincadeira.
Um belo dia, marcaram uma dessas “Festa Americana” na residência do Ramiro, um loirinho que morava na rua de trás da minha casa. Normalmente eu ia até lá pulando o muro, mas minha mãe falou que em festa americana isso não pegava bem. Não entendi o porquê, mas acatei e fui pelas vias normais até lá. Horas antes, quando estava me preparando para o grande momento – afinal, seria minha estréia em tal atividade – fiquei imaginando como seria essa tal festa americana.
Até então, as únicas coisas em minha vida cuja palavra “festa” estava presente eram festa de aniversário e festa junina. Imaginei uma mistura das duas com fogos, bolo, um monte de bandeirinhas dos Estados Unidos penduradas, em vez de chapéu de aniversário uns capacetes militares e todo mundo falando inglês… Praticamente um feriado de 4 de Julho personalizado. Hum, não, não devia ser isso, ninguém fala inglês aos 11, 12 anos (eu não falo até hoje, mas combinei com o Alexandre que vou aprender no dia em que ele apresentar a monografia dele – sorte que não se jubila mais, né, piazão?).
Pronto. Banho tomado, cabelo penteado, tênis amarrado com dois nós, pulseira do relógio escolhida e combinando com a cor da roupa (eu tinha daqueles relógios que trocavam pulseira, lembram?) e minha mãe já passara todas as recomendações e providenciara o refrigerante. Essa história dos meninos levarem o refri e as meninas o salgado é muito antiga – remonta dos antigos índios comanches (vai ver é por isso que a festa chama “americana”).
Ah, sim, esqueci de dizer que foram os comanches que inventaram o refrigerante. Mais precisamente a filha do chefe da tribo, que se chamava Coca-Cola.
Voltando; quando cheguei à festa vi uma cena da qual jamais esquecerei. Cerca de vinte pessoas sentadas em círculo, quietas, imóveis, ouvindo uma música lenta – que depois vim saber se tratar dos Scorpions; Wind Of Change, lembram dessa? – iluminados por uma luz lúgubre saída de luminárias feitas de papel crepom (acho que foi uma tentativa de dar um clima de boate ao evento) e no canto uma mesa com refrigerantes e coxinhas de frango. “Chuta que é macumba”, pensei na hora (macumba chique, diga-se de passagem, com frango industrializado).
Mas não, era pra ser assim mesmo. “Isso é que é a tal da festa americana? Vou embora!”, decidi. Mas meus amigos me viram chegando e não me deram chance. Foram logo tirando o refrigerante da minha mão e me colocando “à vontade”. Pra ajudar, estava presente a Fabiana – o primeiro amor platônico que tive. Uma moreninha de cabelos lisos (são a minha perdição) que devia ser uns dois anos mais velha do que eu. Eu tinha 11 e ela 13. Ou seja, ela nem sabia que eu existia – o negócio dela eram os meninos mais velhos, da oitava série. Eu era, no máximo, o amiguinho sem graça do seu irmão… Depois vêm me dizer que o mundo não é cruel.
O que eu fiz? Sentei na roda de macumba como todo mundo e fiquei ali sem saber o que fazer. “Tá, e agora?”, perguntei pro menino sentado à minha direita. E ele respondeu: “Agora você tira uma menina pra dançar”… “O QUÊ?!”, dei um berro que ficou todo mundo me olhando – até hoje sinto vergonha só em lembrar. Como assim, “tira pra dançar”? Ninguém tinha me dito nada de “tira pra dançar”. “‘Tira pra dançar’ uma ova! Agora sim é que eu vou embora!”, esbravejei. Porém, quando levantei, o Ramiro, o dono da casa, foi lá e tirou a Fabiana para uma dança. Rapaz, que raiva! Agora era questão de honra, precisava tomar uma atitude. E tomei: sentei de volta.
Uma vez um amigo foi acampar e, durante a noite, surtou. Começou a choramingar na barraca e dizia: “Meu avô não é frouxo, meu pai não é frouxo, meu irmão não é frouxo… por que é que eu sou frouxo?!” Pois eu tava me sentindo assim naquela hora. O Ramiro lá, dançandinho com a moreninha, e eu nada. Aliás, ninguém nada. Eram 18 cabeças imóveis, acomodadas na segurança de suas cadeiras, e um casal na pista. Pois me enchi de toda a coragem do mundo e levantei. Depois, movi a perna direita (com dificuldade, admito) e depois a esquerda em direção a uma outra moreninha (não tão cuti-cuti, como diria Marcelo Tas, quanto a Fabiana) que estava logo à minha frente.
“Quer dançar?”, perguntei. E ela disse sim (também, naquela situação ela era capaz de pagar pra que alguém a tirasse pra dançar). Foi aí que eu me dei conta de algo importantíssimo: eu não sabia dançar. Nunca tinha feito tal coisa em toda a minha existência. Comecei a tremer e travei. O máximo que eu fazia era dar uma balançadinha de um lado para o outro, mas sem tirar os pés do chão. Olhar vidrado, boca seca, e os braços mal tocando a menina (eu não conhecia o protocolo. Não sabia se podia encostar, a que altura a mão devia ficar, que pressão devia usar… Descobri em menos de cinco minutos, numa simples tentativa de dança, diversas perguntas fundamentais para a vida… e a escola ainda ensinando pretéritos e equações).
Foi aí que ela perguntou: “Você tá tremendo?” Sério, eu queria virar uma avestruz e enfiar a cabeça debaixo da terra. Mas não fiz isso… Fiz pior: “Sim, é que eu tô com frio”, disse. Gente, eu morava no Centro-Oeste brasileiro! A temperatura devia estar por volta de 27ºC aquela noite. Ela deu um risinho do tipo “tsc-tsc-tsc, coitado!” e voltou para a sua cadeira. O resto do pessoal foi se soltando e de repente o lugar parecia um baile. Eu fui para a mesa no canto, comer salgadinho e tomar refri. Não dancei com mais ninguém aquela noite. Quanto à Fabiana? Ela se casou com o Ramiro e foram felizes para sempre (mentira, nem sei deles, só acrescentei essa pra dar mais dramaticidade).
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Tags: Comédia, Humor, Infância, Nostalgia

