Crônicas e Contos

Textos de Beto Pacheco
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    outubro 19th, 2009Beto PachecoCrônicas

    por Beto Pacheco

     

    Deve ser assim, não sei, pois não tenho tal talento (aliás, nem sei se tenho algum). Entra no quarto, senta-se à cama, olha para um lado e vê a janela, espia o outro canto e enxerga o violão. Coça a cabeça, pensa, levanta, anda cinco passos, abre o zíper da capa e pega o instrumento. Papel e caneta. Sol? Lá? Dó? Qual será? Normalmente é amor ou pesar. Alguns fogem à forma básica e satirizam, outros criticam, há os que abstraiam, vá lá.

     

    Será que virá primeiro a letra? A meu ver a música é mais fácil, depois é só encaixar. Gosto daqueles que a fazem em forma de crônica (por que será?), mas os poetas também são deslumbrantes. E os franciscos, então, que fazem ambas, juntas, separadas, tudo ao mesmo tempo… ou não. E saberá ele que já é uma obra-prima, assim, logo de cara? Sei não, pois não sei fazer.

     

    Depois de muito rabisco, rasura, borracha, lápis quebrado, papel riscado, acorde daqui, melodia dali, grava, volta, escuta, repete, de novo, guarda, espera um pouquinho, volta a ela, refaz, relê, aquele maior ficaria melhor menor?, com sétima?, aumentada?, diminuta?, ai-ai, está pronta. E aí, guardá-la ou mostrá-la?

     

    Liga para um amigo: – Você tem que ouvir. Ansiedade. Prepara o ambiente, põe o papel à frente, toma o ar e começa. Três, quatro minutos no máximo, e o amigo ali, só ouvindo. Terminado, “E então, o que achou?”. E a resposta: “Fantástica!” Mais gente escuta, mais gente fala, mais gente incentiva e ele acaba tocando em um barzinho, de banquinho e violão.

     

    Lá, no bar, está um homem “do meio”. Acaba gravando-a. É sucesso. Todos cantam, toca na rádio, programa de auditório, entrevistas, release, jornais e revistas. Marca o primeiro show, e o segundo, e o terceiro e passam os anos. E, a cada apresentação, na hora do refrão, todos em uníssono o acompanham. Passam-se os anos e, um dia, lá no meio da platéia, outro músico, acanhado compositor, o observa. Conhece a letra, entoa as notas em comunhão e sorri.

     

    Quando o show acaba, ele volta para casa. Entra no quarto, senta-se à cama, olha para um lado e vê a janela, espia o outro canto e enxerga o violão. Coça a cabeça, pensa, levanta, anda cinco passos, abre o zíper da capa e pega o instrumento.

     

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