Crônicas e Contos
Textos de Beto Pacheco-
fevereiro 4th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Estava folheando uma revista quando me deparei com o anúncio de uma festa, dessas populares que cidades do interior vira-e-mexe promovem. Era uma festa da uva de não sei onde (Colombo, eu acho). Tem pencas dessas festas por aí. Festa do milho, festa da batata, festa da acelga, festa do pepino, festa da laranja, festa do pêssego e do ovo… um monte.
Todas elas têm mega-shows. Só que são mega-shows sertanejos. Até aí, tudo bem, cada um com seu cada um. Agora, por que é que cargas d’água eles têm de ser todos iguaiszinhos? Sim, pois há um protocolo sertanejístico. Explico. É obrigatório, por exemplo, ser uma dupla sertaneja. Não vale trio, não vale single, não pode quarteto, quiçá banda com nome. É dupla e ponto. E a dupla tem de ser toda planejadinha.
O que faz a primeira-voz, que é quem canta pra valer, é o cara de cabelinho arrepiadinho e roupas moderninhas. O outro toca viola e usa chapéu. É sempre assim: o que usa chapéu tem de tocar viola e ser a segunda-voz. Por quê? Sabe Deus! Tenho uma teoria: para evitar briga. Entendam, não dá pro cara ser a primeira-voz, tocar violão e ainda usar chapéu. Desse jeito não sobra nada pro outro coitadinho. E você bem sabe que inveja é uma desgraça. Ainda mais se for dupla de irmãos. O que acontece sempre.
E todas as músicas têm de ter – se não tudo, pelo menos algumas partes – morena, loira, cerveja, sertão, laço, cavalo, rodeio, e coração partido. E agora tem uma nova: é obrigatório um dos dois ter nome composto. Zé Fulano e Beltraninho, ou João de Barro e Sabiá, ou então Rio Tocantins e Paraná.
O pior é que o povo engole, gente. Linha de produção. Caramba, se tem uma coisa que não precisamos, necessariamente, gastar para consumir é a música. Ela está no rádio, pode ser baixada no computador, ouvida nos programas de tevê, etc. Além do que, há outra característica: os preços são parelhos. CD é CD e pronto. Não é por que uma música é mais bem produzida, tem mais efeitos, instrumentos que o CD vai custar mais. Portanto, dá para escolher à vontade. Não é como carro que, se você não tem dinheiro, não tem escolha e compra um Uno (tá bom, Uno peguei pesado).
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por Beto Pacheco
Além da minha própria (obviamente) apresentação de TCC, assisti, na época em que estava me formando, a outra, de um grupo de amigas. Elas fizeram dois produtos: um documentário e um livro-reportagem – ambos muito legais – sobre o uso de espaços alternativos para a expressão de ideias, pensamentos, críticas, etc. Coisas como protestar pichando muros, mandar recadinhos em porta de banheiros públicos, colar cartazes criticando a sociedade em postes de iluminação pública, entre outras. Um ótimo trabalho e extremamente criativo.
Há tempos, espaços e meios alternativos são usados para que possamos nos comunicar. Bilhetes de socorro deixados em garrafas, para-choques de caminhões, post-it na geladeira e por aí vai. Contudo, estamos na Era da Informação. E da informação digital. Foi-se a Esfera Privada. Não existe mais o romantismo e a discrição coisa. Todo mundo sabe tudo, vê tudo (querendo ou não). Basta googlar. Basta entrar no Orkut, Twitter, Facebook ou MySpace. Acho espaços bacanas, fundamentais para a divulgação de trabalhos, envio de convites, encontro de velhos amigos, espionagem da vida alheia e compartilhamento de toda sorte de traquitanas.
Contudo, há os exageros. E eles aparecem quando usamos isso para mandar “recados”… daqueles com aspas. E aí chegamos aonde eu queria: às frases do MSN. Gente, é praticamente um diário (aberto ao público). Todo mundo fica sabendo se a pessoa está feliz; se está triste; se está namorando; quando começou; qual o grau de paixonite; se o amor está declinando; se acabou; se a pessoa está com raiva por conta disso; se superou; se achou outro; se quer morrer; pular da ponte; se vai casar; se ficou noivo(a); se, quando, onde e como rolou o pedido, etc., etc., etc.
A partir daí, temos uma segunda fase. A primeira foi a da incontrolável vontade de expor ao mundo o que rege o momento em que cada um vive. A segunda é a forma. Há aqueles que são diretos em suas frases, há os literários, os filosóficos, os metafóricos, os que escolhem frases musicais e os que colocam aquelas caretinhas do Smile.
Os que são diretos já declaram, sem pudor, que encontraram o amor da vida. A tampa da panela, a alma gêmea, a tão procurada encruzilhada de ambos os destinos. Ai, Ai! Duas semanas antes estavam solitários, crentes de que ninguém no mundo presta e que passariam a eternidade sem dar chance a mais ninguém. Duas semanas depois voam pombas brancas, rosas vermelhas e anéis dourados camuflados nas frases do MSN. Dá vontade de bocejar.
Os literários escolhem uma frase chique, dita por alguém de renome (normalmente um nego que nunca leram e cuja frase copiaram do MSN de outra pessoa que também não leu o dito) e colam lá com ar de que só eles tiveram o afã de achar sapiente comentário. Tem um maldito poema – das borboletas, ou da busca das borboletas, ou do jardim das borboletas, sei lá eu – do Mário Quintana que é campeão de audiência neste quesito.
Os filosóficos escrevem uma parada – bonita, vá lá – que poucos entendem, cuja curiosidade instiga pela construção, mas que não chega a nenhuma conclusão final. O que está escrito ali diz respeito apenas à pessoa, ao contexto dela ou à mente convexa da mesma. Daí você fica pensando: já que só ela entende e que só a ela diz respeito, por que, raios!, colocou ali?
Os metafóricos usam de figuras de linguagem para expor o seu estado de espírito. “O sol vai raiar na alma daqueles que passeavam pelo jardim no dia que as flores desabrocharam…” e blá, blá, blá. Estes normalmente têm, naquele momento, a certeza de terem escolhido uma frase que traduz uma verdade absoluta. Pelo menos até o dia seguinte, quando alguma coisa acontecer, mudar toda a verdade até então estabelecida e ele ter de mudar para mostrar a todos os demais – tanto os que têm, quanto os que não têm nada a ver com a peteca – o que acontece em sua vida.
Os das frases musicais têm seus clássicos pré-estabelecidos. Funciona assim: Para comentários do tempo, Jorge Benjor (Santa Clara clareou, Chove Chuva, Lá Fora está chovendo…). Os apaixonados – babões – letras de música sertaneja (não sei dar exemplo porque não conheço nenhuma das novas duplas do “sertanejo-universitário). Já os amantes escolhem Vinícius de Moraes. E os traídos, Vinícius. Os sofridos, Vinícius. Os esquecidos, Vinícius e por aí vai. Pelo menos esses últimos têm bom gosto.
Ou seja, o MSN é o nosso moderno para-choques de caminhão. Com uma (triste) ressalva. Os para-choques também apresentam frases divertidas, bem-humoradas, irônicas e tudo mais. Já o MSN é uma babaquice melosa, babada e cuja criatividade perdeu-se ao longo da estrada.
Ah, e, por favor, deixem Deus fora disso… ele não tem MSN e não vai conseguir ver seus recados a Ele. Seja recado direto ou metafórico.
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por Beto Pacheco
Gente, acho bacana termos um mundo melhor, aprendermos, buscarmos novas alternativas, lutarmos por condições melhores de vida, de saúde, de sociedade, educação, diminuirmos as diferenças e tal. Mas todas as lutas, invariavelmente, trazem benefícios, discordâncias e um bando de gente chata a tiracolo. Assim, nada mau em ser feminista, mas, convenhamos, as feministas ferrenhas são um porre. São capazes de fazer xixi em pé só pra equilibrar a briga com os homens. “A última gota é sempre na calcinha”, era só o que me faltava.
Os ecolutadores também são chatos. Tudo é verde, tudo é vida, tudo aquece o planeta, todo progresso é maligno, todos os bichinhos são bonzinhos e o Homem mau. Eu sei que estamos ferrados e que sem a briga deles estaríamos piores, mas isso não muda o fato de eles serem chatos, é só isso que estou querendo dizer. É como naquele filme O Advogado do Diabo: o réu era um crápula, bandido, salafrário e estava sendo acusado de ter matado a própria família. O advogado de defesa (Keanu Reeves) o achincalhou no tribunal perante os jurados e o cara não entendeu nada. Depois ele explicou: “Eu quero que eles te odeiem como pessoa, mas que percebam que o mundo está cheio de gente assim, mas que, nem por isso, essas pessoas são assassinas.” E ele foi absolvido. No fim das contas acho que o cara era culpado, hehe, mas isso não vem ao caso.
Veja bem, voltando ao assunto, eu sou um grande defensor dos direitos das mulheres, do meio ambiente, dos homossexuais, dos negros (pior que nem sei se posso usar essa palavra, se não corro o risco de ser acusado de segregário – mesmo sem querer), das crianças, dos favelados (outra palavrinha que dá dor de cabeça), ou seja lá de quem quer que esteja passando por discriminação, dificuldade, humilhação, etc. Mas alguns exageros me apertam o calo.
Lembro de uma vez que queriam banir as palavras consideradas racistas do português-brasileiro. Usar “neguinha”, por exemplo, não poderia mais. Caramba!, e o que faríamos com as obras de Machado de Assis, com as canções de Gilberto Gil, Dorival e Ary Barroso, com a poesia de Vinícius de Morais, com o teatro de Nélson Rodrigues… Jogaríamos tudo fora? Ou faríamos um concurso público para contratar revisores e intérpretes para substituírem tudo aquilo que, mesmo sendo de nossa cultura – africana até o osso –, fosse considerado racista? O racismo está muito mais no tom do que nas letras.
Resumindo, tudo tem de ser politicamente correto (areado com palha de aço) nos dias de hoje – e nem sempre é por princípios. Explico. Na maioria das vezes, é por questão meramente financeira. Não que esteja errado, já que somos todos – inclusive chineses – capitalistas. Vivemos na onda das responsabilidades. Responsabilidade fiscal, responsabilidade social, responsabilidade ambiental, responsabilidade sustentável e por aí vai. E a empresa tem de adquirir tais responsabilidades, caso contrário não ganha verbas governamentais, não tem descontos nos impostos, perde contratos e mais uma penca de abacaxis (o coletivo tá errado, eu sei, mas isso não vem ao caso) que nem se contam.
Daí vem o Dr. Dráuzio Varela (aquele careca, do Fantástico) e começa a dar um monte de lições. Gosto dele. O problema é que o povo só faz o que ele prega se o Show da Vida mostra e, pior!, enquanto mostra. É só sair do ar a campanh… perdão, a série de reportagens que volta tudo à estaca zero. Exemplo: campanha de doação de órgãos. Foi a série ir ao ar que, em um mês, triplicou o número de doadores na Santa Casa de Curitiba (dados repassados em off para este repórter). Bastou a série sair do ar que, pimba!, os números decaíram novamente. Se tá na moda da “Grobo” o povo embarca; se não…
E para finalizar, a pior de todas: estão descaracterizando personagens históricas para criar uma mentalidade (uma responsabilidade) saudável. Eu sei que precisamos cuidar da saúde. Sou, inclusive, um ferrenho (chatíssimo, diga-se de passagem) combatente do tabagismo e estou tentando me controlar com relação à comida também. Ainda mais agora que tenho um pai operado com 3 pontes de safena em casa. Contudo (e que fique de fora desse debate o chato de galocha, o indivíduo real e que entre na discussão o escritor, que se vale da fantasia), eu vi, hoje, uma cena que me desanimou– um Rei Momo magro. Magro, não, magérrimo. Tudo bem que devemos dar o exemplo e que uma figura pública é vitrine para as demais. Agora, Rei Momo magro não dá, gente. É como Carnaval sem Luma de Oliveira.
Portanto, comei-vos e bebei-vos, foliões. Deixemos, pelo menos na semaninha do Carnaval, as responsabilidades de lado. Afinal, é para isso que ele serve… já que na quarta-feira de cinzas todos estaremos de volta ao dia-a-dia, com seus chatos – tenham eles razão ou não – e seus moinhos de vento.
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por Beto Pacheco
Ontem, eu escrevi sobre canalhas confessos (ou quase). Entre eles, James Bond e Vadinho. Curiosamente, uma amiga estava lendo alguns textos em outros blogs que existem por aí (é, eu sei, uma traidora mesmo) e encontrou um que falava da “tríade sinistra”. A princípio, o autor comentou que, até então, achava que a tríade sinistra era formada por Hitler, Stálin e o muro de Berlim. Depois, descobriu que a tríade era, na verdade, formada por uma trinca de canalhas liderados pelo intrépido 007.
Pois eu decreto uma nova tríade sinistra, formada por José, João e Genuíno. Com esses nomes, poderiam até serem filhos da mesma mãe. Contudo, Deus é pai e não permitiria tamanha desgraça a uma única e sofredora progenitora. Falo dos, novamente adotados pelo partido do presidente, José Dirceu, João Paulo Cunha e José Genuíno. O site G1 afirma que eles foram confirmados, no último fim de semana, na lista de indicados da ala majoritária da sigla para compor o novo Diretório Nacional, que será instalado em fevereiro.
Mas será possível que essa meleca de país jamais mudará? A tríade sinistra do mensalão, os caras que compraram deputados, que enfiaram todos os tentáculos no óleo que azeita a máquina pública, os caras que organizaram uma quadrilha vão, mais uma vez, comandar a campanha presidencial do PT. Ou seja, poderão, se vencerem, arquitetar tudo de novo. E, pior, em virtude da experiência adquirida, saberão mais facilmente escapar das armadilhas.
Para ferrar tudo de vez, terão a seu lado o Governo em pleno exercício. Ou seja, usarão das ferramentas que o poder lhes possibilita sem pudor. Eu desisto. Já me enchi de Collor, Sarney, Dirceu, Cunha, Genuíno, Arruda, cuecas cheias de dinheiro, caixa dois, empresas de fachada, laranjas, retórica, recursos. Perdi a paciência. Se James Bond pudesse saltar das telas… Se votar resolvesse… Se o terremoto, em vez de sacolejar favelas haitianas, sacolejasse o congresso brasileiro – só uma sacolejadinha que fosse – eu ainda daria crédito àquele que virou a ampulheta do tempo.
Enquanto isso não acontece, o negócio é espairecer na Bahia, com uma Dona Flor na rede e sem ver tevê, nem ouvir rádio, nem ler internet, jornal ou revista, quiçá ir à missa. Como já foi dito: “a ignorância é uma benção!”
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por Pacheco, Beto Pacheco
A cena é a seguinte:
O casal está em um carro luxuoso, seguindo para um hotel luxuoso e travam uma conversa que é um misto de flerte, provocação e disputa dialética. Lá pelas tantas, após um insinuante questionamento por parte dela em relação às intenções do homem, ele dá a seguinte resposta:
- Você não faz o meu tipo.
- E qual é? Burras?
- Não. Casadas.
A resposta é de ninguém mais ninguém menos que Bond, James Bond.
Vamos falar a verdade, é de se invejar tamanha canalhice. Uma canalhice bem ajustada, proporcional ao momento, no tom, na altura, no timbre e acorde certo. Tal qual um espião de Ian Fleming deve ser.
É, fácil-fácil, a melhor frase do filme. Gosto também quando, de volta à mesa de pôquer, logo após quase morrer envenenado, ele olha fixamente para o vilão – que orquestrou a tentativa de homicídio – e diz:
- Essa última mão quase me matou.
Boa piada. Contudo, essa última frase é bonitinha, mas ordinária – no sentido de trivial, comum da coisa. É apenas uma galhofa com a recente situação. Não se presta a demonstrar uma característica de personalidade. Já a outra, “Não. Casadas.”, é ordinária no sentido rodriguiano da coisa. Cafajeste na essência; seja sob, sobre ou alheia à cama, num armário ou lotação qualquer.
Ou seja, não há mar, língua, cultura ou gênero que modifiquem os seres humanos a tal ponto que não possamos ver o espelho de um James em um Vadinho (o de Dona Flor, do Jorge Amado) – no que se refere à canalhice, é claro.
O primeiro tem nome clássico, inglês, quase um chofer com licença para matar. O segundo pode significar a simbologia da vadiagem, o vadio, ínfimo nos detalhes e nas artimanhas. Mestre dos botecos e das mesas de sinuca. Que poderia até adotar a alcunha sem sufixo se não fosse chamado insistentemente de “inho” pela mulher que o ama. Amor recíproco – ela, independente das escapulidas dele; ele, independente de ela, após a morte dele, casar-se novamente.
E aqui estamos, na essência dos relacionamentos humanos. Seja Bond ou Vadinho; Fleming, Rodrigues ou Amado; Inglaterra ou Brasil; Londres ou Rio; Baker Street ou Baixa do Sapateiro, sempre haverá espaço e colo para os canalhas. Dos paralelepípedos baianos às fugas explosivas, sempre aparecerá um que, por uma noite que seja, poderá de deliciar com seus tipos preferidos.
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K7
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janeiro 22nd, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Achei uma caixa de sapatos dia desses cujo conteúdo havia fugido à minha memória: antigas fitas K7. Lembra delas? São espécimes extintos (talvez por conta da queda de um meteoro ou por um inverno intenso, não sei ao certo). Viveram no mesmo período em que as máquinas de escrever e os bolachõe de vinil dominaram a Terra. Tempos de cepacol, genius e Bamerindus. Era de Zico, Roberto Dinamite e Falcão. Ai, ai!
Pois fui fuçar as antigas fitas. Em sua maioria, eram daquelas compradas virgens, para que se gravasse o que bem entendesse por cima. Achei raridades que vão de Legião Urbana a Raul Seixas – de quando ambos ainda existiam. As capas eram produzidas a partir de recortes de revistas colados sobre a capa original. Outras fitas não eram reproduções de discos específicos, mas, sim, criações inéditas e apresentavam músicas gravadas do rádio, todas finalizadas com a vinheta da emissora.
Contudo, dentre tantas Basf, Sony e outras marcas que também já foram dessa para melhor, achei uma raridade. Uma fita K7 original. Inclusive com capa vinda de fábrica. É uma fita demo, com apenas cinco músicas. Três do lado A e duas do lado B. A capa traz (na contracapa) os números de registros das músicas e o nome dos compositores. Ela não tem “marca”; é branquinha e mostra, registrada no próprio plástico, os dados do álbum a qual se refere.
Pra melhorar ainda mais essa descoberta, a fita é um verdadeiro clássico. Podia ser que eu encontrasse um fita K7 com músicas da Xuxa, Roupa Nova, Rádio Taxi (sim, existia uma banda com esse nome), R.P.M ou, até, um exemplar de Atchim e Espirro (vai no Google), mas, não… Dei sorte, pois, deste sempre – pelo menos no que se refere à musica – minha família sempre prezou pelo bom-gosto.
A fita é um original (mesmo que K7) do AC/DC, do álbum Jailbreak’ 74. Fora comprada por, pasmem!, meu pai em 1984 e resistiu ao tempo dentro daquela caixa de sapatos. Sábado, tirei-a da capa e levai-a ao meu antigo aparelho de som. Peguei um cotonete, embebi em álcool e limpei o cabeçote… quem já fez esse processo sabe do que eu estou falando. Coloquei-a na posição e, tchan-tchan-tchan!, apertei o play. E ela tocou.
Foi um som abafado, mas perfeitamente audível. A fita estava intacta. Abri o deck, tirei a fita e procurei uma caneta bic. Pra quê? Se está me fazendo esta pergunta é porque deve ter nascido na década de 90. Engatei a caneta em um dos buracos presentes na fita e, com um habilidoso giro de mão, rebobinei-a. Fiquei alguns minutos ali, ouvindo aquele som do passado e com uma vontade danada de rebobinar todas as fitas… e, assim, me rebobinar por tabela.
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por Beto Pacheco
Rei,
que sou,
não perco
meu tempo com
um bando de plebeus.
“Mas, majestade, vos damos
nosso intelecto, amor, obediência e,
também, algumas puxadas em vosso saco,
motivo principal de estarmos próximos ao topo”
Hei, e nós aqui embaixo que trabalhamos e, mesmo
assim, não conseguimos subir, falta puxar uns sacos por aí?
Reclama porque consegue questionar. E nós, cá tão baixos,
mal sabemos escrever. Ditam por nós e apenas assinamos: X
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Mascote
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janeiro 18th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
O Brasil é, realmente, o país da piada pronta – como diz Zé Simão. Ouvi (ou li, sei lá) que andam pensando em escolher como mascote para a Copa de 2014, que será aqui no Brasil, o Saci Pererê. Pois é… Assim, nada contra o Saci, que até acho um personagem bacana, parte de nossa cultura, blá, blá, blá, mas, péra lá, cada macaco no seu galho.
Gente, a meu ver, não deve funcionar muito bem como mascote de uma Copa do Mundo de Futebol – mais uma vez: futebol – um personagem que só tem uma perna… Vai que o Seu Saci cai sentado numa tentativa de passe. E se fosse pra dar uma pedalada, então? Entenda, não é um pensamento preconceituoso, pois sou um entusiasta da diversidade e incentivo a pratica do esporte, independente da necessidade de adaptação, como fator determinante de integração social e atitude saudável. Contudo, a questão em jogo aqui é a construção simbólica que implicaria essa escolha.
O Saci, além de um pé só (não dizem que jogador perna-de-pau normalmente tem dois pés esquerdos; que se dirá de alguém que tem um só?), é tido como um menino peralta, chegado a traquinagens, e não vejo como positivo tal escolha para representar um país que pretende mostrar-se amadurecido, responsável, profissional e capaz de produzir um evento de tamanha magnitude. Ou seja, deixo claro mais uma vez, a questão, obviamente, não está no físico, mas nas atitudes.
Para piorar (continuo falando das atitudes), o danado do sacizinho fuma cachimbo… e aqui o bicho pega. Sou antitabagista ferrenho. Não suporto cigarro e, mesmo que a minha opinião sobre o assunto seja (e é) irrelevante, convenhamos: é inadmissível um mascote fumante – seja de cachimbo, charuto, cigarro ou palheiro. “Poxa, Beto, mas este Saci que será mascote da Copa não fumará.” Péra lá, para tudo. Se for para homenagearmos um personagem do folclore, façamos direito e tratemos de não descaracterizá-lo.
Além do mais, o tempo que levaríamos para explicar o porquê da escolha, o que o Saci representa, como ele foi inserido na cultura popular e qual a sua personalidade seria demasiado longo para a voracidade da mídia esportiva que, no fundo no fundo, quer ver bola na rede. Basta ter como exemplo o tal do Izzy, o mascote das Olimpíadas de Atlanta, que até agora não se sabe o que é, para que serve e, quiçá, se é deste planeta. Claro que o Saci, ao contrário, carrega todo um embasamento histórico – diferentemente daquela “coisa” escolhida em 1996 –, mas não creio que ele se encaixe neste evento especificamente.
Agora, caso queiram porque queiram que ele seja o nosso mascote, tudo bem, só aproveito e mando um adendo: por que não escolhemos dois mascotes? Mandamos o escrete canarinho com Saci Pererê na ponta-esquerda (ou direita, vai que ele é destro) e o Curupira de centro-avante (ou centro-atrás, difícil saber). Só tenho medo que ele emende o cruzamento do Saci de primeira e a gente perca por 1 X 0… com um gol contra.
Tags: Brasil, Copa, Copa do Mundo, Copa do Mundo de Futebol, Copa no Brasil, Esporte, Futebol, Humor, José Simão, Mascotes, Mascotes da Copa, Mascotes de Olimpíadas, Saci, Saci Pererê, Semiótica, Símbolo, Sociedade -
janeiro 15th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Cada vez mais eu creio que uma das condições básicas para se atestar a humanidade de um ser-vivo é o índice de maluquice que ele alcança. É sério, a cada dia o mundo vê aumentar a quantidade de tan-tans que nele habitam. E quando digo tan-tan, é tan-tan mesmo. Pinel. Não que seja coisa só dos dias do hoje, haja vista o Calígula, que nomeou o próprio cavalo para senador. Segundo os historiadores (sempre eles!), o equino tinha direito até a toga na cor púrpura, aposentos de mármore e refeições à base de aveia e leite. E o Haiti naquelas…
O problema, a meu ver, é que a loucura tem se espalhado por todas as classes, cores, credos e perdeu o pudor. Antigamente, ela ficava restringida a imperadores, reis, monarcas, príncipes… essas figuras que, de tanto ter, não sabiam mais o que fazer da vida e ficavam caçando sarna pra se coçar. Agora, não. O troço descambou. Basta colocar uma câmera de tevê num calçadão de qualquer capital brasileira para ver a turba que junta em volta.
É neguinho dançando o Créu, popozuda querendo virar celebridade, artistas dos mais variados “talentos” querendo mostrar seus dotes custe o que custar, outros mandando beijo pra sogra, etc. E não bastassem os populares na realidade, virtualmente a telinha ainda nos brinda com seus reality shows e uma infinidade de camisas-de-força que se superam ano após ano. Pior!, agora existem as paródias dos reality shows – à la Pânico na TV e suas Panicats. Bom, pelo menos umas delícias em carne e osso a loucura nos reserva, senão era o fundo do poço com pá a tiracolo.
Indo mais embaixo ainda na escala da visibilidade da insanidade, e partindo em vertiginosa queda, chegamos aos malucos ocultos. Eles são a última linha antes da piração total – caso este que só se resolve com internamento e quarto acolchoado. Esses malucos não são reis, não são celebridades tresloucadas, muito menos populares que se jogam às ruas em busca de 15 minutos. Estes, ao contrário, são reclusos.
Eles ficam em suas casas e fazem coisas retardadas pelo puro prazer que lhes causam as bizarrices que planejam. Contudo, para o deleite dos expectadores afoitos que não se aguentam e precisam porque precisam chafurdar na desgraça alheia, há a internet. E da internet ninguém escapa. Dúzias de sites, editorias, blogs e portinhas digitais (dê-lhe Youtube), trazem as novidades relacionadas às loucuras pessoais inerentes a essa raça que surpreende cada vez mais por ter conseguido – sendo como é – conquistar o mundo.
No portal G1, da Globo, há uma editoria chamada Planeta Bizarro. Nela o desfile é diário e incessante. Por exemplo: descobri por lá que uma mulher guarda na geladeira, desde 1977, uma bola de neve… isso mesmo que você leu. Um dia, lá em 1977, nevou na terra da dita-cuja. Daí ela teve a brilhante ideia de pegar uma bola de neve e guardar para todo o eterno sempre. Sinceramente, tem coisa mais retardada que isso?! Se sim, me conte, pois vai merecer outra crônica.
E não para por aí. Vejam outras manchetes que encontrei:
Gato é convocado para júri nos Estados Unidos
Jovem inova e faz tatuagem de óculos no rosto
Clube de Los Angeles tem striptease com personagens de ‘Star Wars’
Ladrão é flagrado de lingerie
… sério, eu podia ficar o dia todo relatando, relatando e não ia acabar nunca. Só não o faço porque ia acabar entrando para a lista.
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janeiro 13th, 2010Crônicaspor Beto Pacheco
Atenção!, moradores dessa singela praça denominada, pelos índios de outrora, como Core-Etuba (que, dizem os entendidos, significava “Pinhão pra dedéu” – ou algo do gênero): Curitiba e sua região metropolitana – que devia fazer parte também da tal Core-Etuba, pois São José dos Pinhais não me parece propriamente um nome tupi – receberão R$ 440 milhões para a Copa.
O dim-dim vem do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) – cujo nome mais parece um tratamento para rebentos de casais de jóqueis. Pois bem, o dinheiro será destinado, basicamente, para a infra-estrutura viária. Ou seja, tapar buracos, sincronizar semáforos, trocar os petit-pavês por concreto, etc. Eu ainda acho que uma parte podia ser destinada para ajeitar o cabelo da dona Dilma, mas isso é papo para outra crônica.
Voltando, acho bacana Curitiba ganhar uns trocos para se ajeitar. Pelo que andei ouvindo por aí, parece que o principal canteiro de obras será a Avenida das Torres Assim sendo, teremos um acesso mais fácil ao aeroporto… Ah, o senhor só tem dinheiro pra andar de ônibus, seja interestadual ou mera condução? Bom, então, alegre-se, porque uma das melhorias prevista é a instalação de um sensorzinho inteligente – chamado Sistema Integrado de Mobilidade (SIM) – no buzão que alertará o semáforo e dará prioridade ao coletivo. Para mim, uma maravilha, pois sempre achei pequeno-burguesa essa história de cada um ter seu próprio veículo.
O fato é que a dona Avenida das Torres sofrerá uma “revitalização completa” (as palavras não são minhas, mas do jornal que li). Beleza! Imaginem só, tudo revitalizadinho, limpinho, concertado com cores mais atraentes, piso novo – com pedras importadas de jazidas africanas –, iluminação inspirada na noite parisiense e um bando de arquitetos vanguardistas saltitando de esquina em esquina para transformar a boa e velha Torres num moderno e convidativo hall de entrada.
Contudo, há um grande, grandessíssimo problema nessa plástica na Sra. Torres: vão tirar de lá justamente sua mais marcante característica… as torres. Gente (o Beto disse “Gente!” pela primeira vez em 2010), tirar as torres da Avenida das Torres é como querer ajeitar a napa do Cyrano de Bergerac. A napa do Cyrano é a própria personalidade dele, assim como são as orelhas do Rei Charles, a pança do Jô Soares ou os peitos da Fafá de Belém.
Pior: se tirarem as torres da Avenida das Torres, como, diabos!, vamos chamá-la? Tudo bem, eu sei que ela tem um nome “oficial” que é… é… hum… como chama mesmo?… deixa eu fuçar no Google aqui… Sim, Comendador Franco, mas, a meu ver, denominá-la assim seria como parar, de uma hora para outra, de chamar o Pelé de Pelé e passar a chamá-lo de Edson. Convenhamos, não dá. Antes “Avenida Sem Torres”, ou “Avenida ‘dos’ Sem-Torres”, ou então “Avenida do PAC”, sei lá, qualquer coisa mesmo, menos Comendador Franco. Nada contra a família Franco e seu homenageado, é apenas uma preocupação com a identidade da cidade (falei bonito agora, diz aí).
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